General Info
Esta tese tem como objetivo discutir a relação entre imigração e saúde a partir da experiência dos imigrantes haitianos em Curitiba e das suas itinerações pelas redes de apoio disponíveis na cidade. Para isso, parte da etnografia foi desenvolvida em duas Unidades Básicas de Saúde da cidade; outra consistiu no acompanhamento das atividades de algumas instituições que compõem a rede de apoio a imigrantes em Curitiba, a Pastoral do Migrante e o Centro Estadual de Informação para Migrantes, Refugiados e Apátridas do Estado do Paraná; por fim, uma última parte englobou atividades relacionadas às rezos formadas por imigrantes, especificamente aquelas desenvolvidas em uma igreja evangélica frequentada pela comunidade haitiana e em uma associação de imigrantes haitianos sediada em Curitiba. Inicialmente, destaco como a experiência migratória haitiana no Brasil é marcada pelo racismo e pela xenofobia. Foi possível compreender ainda que, nas unidades de saúde, as relações entre a equipe e imigrantes são precárias; além da distância social, imigrantes haitianos são entendidos como sujeitos marcados por uma alteridade radical, o que dificulta a superação das barreiras enfrentadas por eles no acesso ao Sistema Único de Saúde. Apesar disso, demonstro que, diante das dificuldades de acesso ao sistema de saúde, os imigrantes improvisavam, inovavam e mobilizavam diversos arranjos em busca de cuidado. Ademais, nas instituições que atendem imigrantes, o atendimento era focado em garantir o acesso à documentação e ao mercado de trabalho. Argumento que o fenômeno migratório tende a ser enquadrado e compreendido socialmente a partir da redução – e, ao cabo, a existência – do imigrante ao binômio documento-trabalho: é preciso estar documentado para poder trabalhar, e é fundamental trabalhar para suprir suas necessidades mais básicas e garantir a possibilidade de permanecer no país de acolhimento. Tal compreensão impõe desafios para o desenvolvimento de uma pesquisa que se volta para a relação entre saúde e imigração. Ainda, dada a centralidade da necessidade de garantir a documentação dos imigrantes, há pouco espaço nas esferas coletivas de acolhimento a imigrantes para se pensar em questões e políticas referentes à saúde dessa população.