Banca examinadora

José Reginaldo Santos Gonçalves
Santuza Cambraia Naves
Maria Rosilene Barbosa Alvim
Elsje Maria Lagrou

Resumo

O objetivo é analisar a constituição de Vitalino Pereira dos Santos (1909-1963), o Mestre Vitalino como artista popular com uma obra, com ênfase nos aspectos institucionais, na participação da antropologia como disciplina nesse processo A realização de um evento, a Exposição de Cerâmica Popular Pernambucana, organizada no Rio de Janeiro, em 1947, pelo artista plástico Augusto Rodrigues, tem sido considerada um marco que consuma a “revelação”de Vitalino. Ao entender os objetos como uma trama de relações sociais é possível perceber como cientistas sociais, folcloristas, colecionadores e artistas, desde os anos 1920, estão modificando a classificação de uma série de objetos, como as carrancas e os ex-votos. Os bonecos de barro de Vitalino, vistos até então como símbolos de atraso, brinquedos de criança pobre do interior, mealheiros de matuto, passam a ser objetos de colecionamento, sobretudo a partir dos anos 1930 e início dos anos 1940. Entretanto, Vitalino permaneceu na Feira de Caruaru, vendendo seus trabalhos.

A exposição, como parte do processo moderno de individualização do artista e da arte, e a feira, como “fato social total” serão tratados como “sinais sociais”, nos termos de Raymond Williams, como “lugares”, domínios de práticas sociais e ideológicas distintas que ordenam e classificam os objetos. A noção que se tem hoje de Vitalino como artista popular com uma obra envolveu a antropologia, a atuação de Gilberto Freire, entre outros intelectuais e artistas. Nesse processo, será enfatizada a publicação de Vitalino: ceramista popular do Nordeste, do antropólogo René Ribeiro. Visto na literatura, como um ensaio, uma biografia, essa publicação pode ser vista como um catálogo etnográfico baseado na noção boasiana de cultura e modernista de arte. É nela que é possível identificar as categorias que constituem uma idéia de obra, dividida em fases, e Vitalino, com intérprete de um mundo.

ABSTRACT

The Popular Pottery Exposition of Pernambuco, organized in 1947, in Rio de Janeiro, by the artist Augusto Rodrigues, has been considered the landmark for the “revelation” of Vitalino Pereira dos Santos (1909-1963). The objective of this paper is to show the complexity of the process, which involves also de participation of social scientists, folklorists, collectors and artists who, since the 1920s, are modifying the classification of a series of objects, like “carrancas” and “ex-votos”. The clay sculptures, until then seen as symbols of backwardness or just toys for poor kids from the country, became objects for collectors specially after the 1930s and beginning of 1940s. However, Vitalino remained in the Caruaru Fair, selling his pieces.

Fair and exposition will be treated as distinct domains of signification. One of the arguments defended is that the notion that we have today of Vitalino – a popular artist with a work – was created through a complex process in which anthropology, the contribution of Gilberto Freire, among other intellectuals and artists, played a crucial role. The book “Vitalino: ceramista popular do Nordeste”, by the anthropologist René Ribeiro, based on the anthropological notion of culture and modernist concept of art, introduces categories that constitute the work and Vitalino as interpreter of a way of life.