Banca examinadora

Peter Fry
Yvonne Maggie
Marco Antonio Gonçalves
Omaz Ribeiro Thomaz
Sérgio Carrara

Resumo

A emergência do fenômeno do HIV/SIDA mobilizou diversos tipos de capital político, econômico, intelectual, sociocultural e outros, à escala mundial, não obstante as idiossincrasias locais e contextuais nas formas de sua expressão e apropriação. Através de uma recuperação histórica do fenômeno do HIV/SIDA, este analisa a dinâmica das mudanças conjunturais que caracterizam Moçambique no seu processo de transição político ideológico, econômico e cultural do “socialismo”para o “capitalismo”. Tendo o fenômeno do HIV/SIDA como um operador lógico privilegiado, o trabalho analisa a dinâmica de produção de diversos, representações e práticas sobre o HIV/SIDA em Moçambique. O repertório de políticas e estratégias elaboradas e disseminadas, o conjunto de práticas instituídas de ação, assim como o repertório de estereótipos e representações marginalmente circulantes sobre o HIV/SIDA fazem parte do processo de constituição e inscrição do HIV/SIDA no imaginário social moçambicano. Em todo esse processo, conceitos , preconceitos, estereótipos são construídos, constituídos e circulados. Sistemas de acusação e de negação vão se estabelecendo.

O processo de inscrição do HIV/SIDA no imaginário social moçambicano evidencia também a dinâmica de “construção da nação”, na medida em que realça os processos de interação, de produção e circulação e discursos e representações que se estabelece como engajamento de múltiplos atores. Atrelado aos discursos da reação ao HIV/SIDA, noções de desenvolvimento, associativismo, princípios morais, engajamento social e economia são avançados. Junto com o advento do fenômeno do HIV/SIDA e/ou através dele, Moçambique afirma sua filiação ideológica ao neoliberalismo contemporâneo, com investimentos no sentido de corporificar valores que o representam, com amplo incentivo e patrocínio de instituições e entidades internacionais multilaterais, bilaterais , governamentais e não governamentais.
Apesar das mudanças de conteúdos e representações avançadas nesta nova conjuntura, persistem similaridades com as formas de atuação que caracterizam a conjuntura anterior, onde o diálogo com as cosmologias locais, com especifidade e com a diferenças tende a ser miminizado.

ABSTRACT

The raise of HIV/AIDS has a global phenomena assembled several types of political, economic, intellectual and socio-cultural capital, amongst others, nevertheless its local and contextual forms of expression and appropriation. Through a historic visit of the HIV/AIDS social occurrence, this work analyses the dynamics of the conjectural changes affecting Mozambique in its socialism to capitalism transition process, which comprises ideological, economic and cultural dimensions. Having the HIV/AIDS phenomena has a privileged logical operator, this work analyses the dynamics of discourses production, representations and practices around HIV/AIDS in Mozambique. The bulk of policies and strategies that have been elaborated and disseminated, the set of institutionalized practices, as well as the repertoire of marginalized stereotypes and representations which circulate about HIV/AIDS have shaped the Mozambican social imaginary on the subject of HIV/AIDS. Within the whole process, concepts, preconceptions and stereotypes have been produced and reproduced. Systems of accusation and denial were established.
The process of imprinting the HIV/AIDS in Mozambican social imaginary also emphasizes the dynamics of the construction of the nation, in the sense that it highlights the processes of interaction, formation and circulation of discourses and representations that comes with the involvement and interaction of multiples social actors. Attached to the discourses in reaction to HIV/AIDS, notions of development, association, moral principles, economy, and social commitment, are proposed. With the emergence of the HIV/AIDS phenomena and/or through it, Mozambique states its ideological coalition with contemporary neoliberalism, investing in order to embody values representing it, with a wide support and promotion from the international, multilateral, bilateral, governmental and non governmental entities.

Despite de shift in terms of content in the representations promoted in this new socio-political era, there are still similarities regarding to forms of intervention that have characterized the previous historical period, where dialogue with the local cosmologies and attention to the specificities and to the difference tended to be neglected.