Laura Moutinho da Silva

Banca examinadora

Peter Henry Fry
Yvonne Maggie
Elza Salvatori Berquo
Ricardo Augusto Benzaquem de Araújo
Sergio Luis Carrara

Resumo

Esta tese versa sobre razão e desejo nos relacionamentos afetivo-sexuais “inter-raciais” no Brasil e na África do Sul. Um significativo silêncio recobriu a análise qualitativa das relações afetivo-sexuais “inter-raciais” no Brasil, desde a década de 70. Esta tese retoma o tema em questão tendo como ponto de partida estudos recentes de orientação quantitativa, que a partir do Censo de 19080 trouxeram dados que relativizam certas representações sociais correntes, quais seja, a predominância dos casamentos homogâmicos na sociedade brasileira, um número relativamente pequeno de casamentos “inter-raciais”, entre os quais prepondera a união entre homem “negro” e mulher “branca”.Visando reconstruir o percurso histórico da produção de certas representações sociais relativas aos relacionamentos afetivo-sexuais “inter-raciais”, recorreu-se aos escritos de autores clássicos da historiografia, da sociologia e da literatura brasileira privilegiando na leitura a inter-relação entre “raça”, as diferenças entre os sexos e erotismo. Essas representações são, em seguida, cotejadas com o trabalho de campo realizado no Rio de Janeiro com pessoas que mantinham ou mantiveram relacionamentos afetivo-sexuais “heterocrômicos”. A dinâmica destes relacionamentos, depreendida do trabalho de campo, tanto permite atualizar o debate com os autores clássicos quanto evidenciar brechas, lacunas e possibilidades não referidas nessa literatura.Desejo e mobilidade social se constituem nos operadores lógicos através dos quais se pode organizar não somente a produção acadêmica e literária sobre o tema como igualmente as narrativas colhidas no trabalho de campo.Ao longo da tese há uma comparação subjacente com os Estados Unidos da América e África do Sul. O último capítulo da tese focaliza o contraste com a África do Sul utilizando a bibliografia e material empírico colhido na Cidade do Cabo. Neste capítulo, procura-se demonstrar como o desejo sexual entre homens “negros” e mulheres “brancas”, que no Brasil se apresenta como uma espécie de lacuna ideológica, surge no centro do palco ds proibições fundantes do regime do apartheid.

ABSTRACT

This thesis discusses reason and desire within “interracial” sexual relationships of affect in Brazil and South África. A significant silence has been maintained on such relationships in Brazil since 1970s. The starting point of the thesis are the quantitative analyses based on the national census of 1980 which challenged a number of accepted social conventions, showing that the vast majority of formal unions are “homogamic” in terms of both “race” and class and that among the small number of “interracial” relationships the majority are between whiter females and darker males.In order to reconstruct the history of the production of certain social representations about inter-racial sexual and affective relationships the thesis looks at classical texts of historiography, sociology as well as works of literature which cover themes related to “race”, eroticism and the relationships between masculinity and femininity. These representations are hen compared to those of young inhabitants of Rio de Janeiro who are themselves involved in such relationships. The dynamics of these relationships revealed by field work leads to a debate with the authors discussed earlier, revealing lacunas and new possibilities of analysis.Desire and social mobility constitute the logical operators which organize the representations which are present throughout the literature and also in the narratives which were collected during field work.Throughout the thesis there is an underlying comparison between Brazil, the United States and South Africa. The final chapter of the thesis focuses explicitly on South Africa, utilizing relevant bibliography and the results of a brief field work spell in Cape Town. The analysis in this chapter suggests that sexual desire between “black” males and “white” females, which in Brazil appear as a sort of ideological lacuna, emerges in the South African context at the very center of the founding prohibitions of the apartheid regime.