Salvador Andrés Schavelzon

Banca examinadora

Prof. Michel Misse
Prof. Márcio Goldman

Resumo

Este trabalho procura uma aproximação ao estudo etnográfico do estado, a partir da análise da execução de uma política pública. O trabalho de campo que dá a origem a esta pesquisa foi localizado, principalmente, nos escritórios da Comisión Municipal de la Vivienda da cidade de Buenos Aires, aonde acontecia a execução dessa política habitacional chamada de autogestão. Partindo dessa experiência, nós procuramos mapear a trajetória dessa política desde sua origem .como proposta de organizações sociais., até o começo do seu funcionamento, com suas reformas sucessivas na fase precedente à construção das primeiras moradias. Por outro lado, este trabalho procura refletir sobre o Estado a partir da dinâmica gerada em torno do complexo sistema dos trâmites ao redor do qual girava a cotidianidade do processo de implementação da política no momento estudado. A intervenção de destinatários e atores estatais nas rotas dos trâmites determinou maneiras diversas e sempre únicas; aqueles percursos permitiram explorar formas diversas do estado, de sua operação, de seu maleabilidade e de sua rigidez. Antes de uma análise do impacto desta política, ou de um olhar centrado em um dos grupos diversos dos atores que participaram na execução, a pesquisa foi guiada por uma preocupação pelo estudo de alguma racionalidade ou de um cosmovisão específica do Estado contemporâneo. Nós discutimos que a dinâmica do acompanhamento dos trâmites, e das disputas políticas entre os diferentes setores progressistas que se ocuparam da implementação desta política, podem ser apresentadas a partir da articulação das noções nativas de gestão e política. Durante o processo da implementação, diferentes pessoas, espaços, momentos, foram descritos alternativamente com respeito à política e à gestão. Para alguns o Estado era essencialmente política, para outros pura gestão. Estilos diferentes do governo enfatizavam de maneira particular uma ou outra dimensão em seus discursos, e na maneira de executar esta política. Assim, estas noções apareciam as vezes em uma separação radical, outras em contato, e também confundidas. A presença de uma racionalidade baseada na separação daquelas idéias .o que chamei de pensamento estatal. é aqui explorada a partir da participação das pessoas nas rotas dos trâmites; do acompanhamento do trabalho diário dos funcionários com relação aos destinatários, das discussões entre autoridades, e a organização institucional. Cada situação permitiu iluminar uma outra faceta da operação do funcionamento do par política e gestão, e foi a partir daquelas relações de oposição, de oscilação ou de redundância que nós consideramos um racionalidade e uma linguagem que estão além das disputas dos diferentes atores particulares. A análise de dois movimentos que parecem ser centrais na racionalidade do estado permitiu, ainda, apresentar a forma em que a implementação de uma política está sujeita ao avanço simultâneo da política e da gestão. Em um caso, é a politização da gestão; em um outro, da construção de uma ordem de gestão que exclui a política. Aqueles dois movimentos são considerados também como epistemologias próprias dos estudos que têm ao Estado como objeto.

Palavras chave: Antropologia do Estado, Antropologia Política, Etnografia, Política e Gestão, Políticas Públicas, Pensamento Estatal.

Abstract

Politics in administration and administration without politics: An ethnography about State thought, shape and conflict in the implementation of housing policy in the city of Buenos Aires.

This work looks for an approach towards an ethnographic study of the State, through the analysis of the implementation of public policy. The fieldwork that gave origin to this investigation was mainly localized in the offices of the Comisión Municipal de la Vivienda of Buenos Aires, where the implementation of a public housing policy called autogestión (self-administration) was developed. From this experience this work aims to map the trajectory of the policy, from its origin . as the proposal of a social organization . until its implementation and consecutive reforms in the phase prior to the construction of the housing. This work also attempts to think about the State through the dynamics generated by a complex system of procedures, around which the day-to-day processes of policy implementation gravitate. The participation of beneficiaries and state actors within these procedures determined different and always unique paths; these allow for the exploration of the diverse forms of the State, its functioning, its malleability and its rigidity. Instead of an analysis on the impact of this policy or a focus upon one of the diverse groups of actors that participated in its implementation, the research was guided by a preoccupation with the study of a certain rationality or specific cosmology of the contemporary State. It is argued that the dynamics of the procedures and the political disputes between the different sectors that were in charge of implementation can be presented through the convergence of native notions of administration and politics. During the implementation process different people, spaces and moments were described diversely with respect to politics and administration. For some, the State was essentially political, for others pure administration. Different styles of government emphasized, in a particular way, one or other dimension in their discourse and in the way of implementing the policy. Thus, these notions sometimes appeared radically separated, at other times they came into contact and at others were confused. The presence of a rationality based on the separation of these ideas .what I have called State thought. is explored on the basis of the participation of people in the routes of proceedings; of the daily work of employees in relation to beneficiaries; of discussions between authorities; and of the institutional organization. Each situation allowed for the illumination of the various facets of the operation of the pair administration and politics, and it was from such relations of opposition, oscillation or redundancy that a rationality and a language are considered, in their extension beyond the disputes of the particular actors. Finally, the analysis of two movements that seem to be central to State rationality allowed for the presentation of the form in which policy implementation is subject to the simultaneous advance of politics and administration. On the one hand, one sees the politicalization of administration and on the other one has the construction of an administrative order that excludes politics. These two movements are also considered to be epistemologies present in studies that have the State as their object.

Key words: Anthropology of the State, Political Anthropology, Public Policy, Ethnography, Politics and Administration (technique), State Thought.