Patrícia Silveira de Farias

Banca examinadora

Peter Henry Fry
Heloisa Buarque de Holanda
Lívio Sansone
Mirian Goldenberg
Yvonne Maggie
Cláudia Rezende

Resumo

Esta tese é um estudo de um espaço central à identidade carioca: as suas praias. Espaço de transição entre a terra e o mar, entre o sólido e líquido, entre forma e não-forma, a praia se constitui enquanto um local liminar, marginal tanto ao terreno habitado da cidade quanto ao inóspito natural do oceano, projetando, e ao mesmo tempo alimentando as formas de organização social vigentes e emergentes na cidade. Além disso, ela se apresenta como “terra de ninguém”, no sentido de ninguém ter dela a rigor posse perene. A praia é também o locus da transformação da cor humana, a própria sede da cor liminar, ou seja, do moreno: nem branco, nem preto, e os dois, ou mais. Neste sentido, a praia se constitui como lugar privilegiado para o estudo das representações e práticas que dizem respeito à “questão racial”.
a tese se inicia com a história social das transformações do significado da praia – de depósito de lixo e de cadáveres de escravos para fonte de saúde e lazer – para em seguida descrever a segmentação das praias contemporâneas de acordo com categorias existentes na sociedade mais ampla, assim, há praias de “intelectuais”, de “pobres”, de “gays”, de “pretos”, entre outras. Este é o pano de fundo para uma etnografia das relações sociais na praia e as identidades que nelas se apresentam. Em geral pacíficas, mas às vezes violentas, estas relações revelam as configurações das categorias de cor “negro”, “branco”, “moreno”. assim como as de “gringo” e “farofeiro”. As interações cotidianas apontam para uma ocupação recente de um cada vez maior número de pessoas dos segmentos negros de classe média e de não brancos das camadas populares, no que parece ser um esforço de legitimação e de se tornar visível não só na praia, mas na cidade e mesmo no pais. Os “arrastões”. como eventos críticos, sugerem por sua vez uma sempre presente ameaça do conflito racial. A praia, então, pode ser pensada como um espaço que ao mesmo tempo reflete sobre e contribui para modificações no imaginário social da questão racial em curso no país.

ABSTRACT

This thesis is a study of a social space which is central to the identity of Rio de Janeiro: its beaches. In transition between the land and the sea, between form and non-form, the beach becomes constituted as a liminal space, marginal to the built up areas of the city and the inhospitable nature of the ocean, and which at one and the same time reflects upon and feeds into ongoing and emerging forms of social organization in the city as a whole. In addition, the beach is seen as a kind of “no man’s land”, since it belongs to all in general but to no-one in particular. The beach is also the locus for the transformation of human skin color, the production of Brazil’s most liminal color “moreno” (tanned or brown) which is neither white nor black nor anything else. The beach can thus be seen as a privileged place for the study of repreentations and practices related to the “racial question”.
The thesis begins with a social history of the transformations of the meanings of the beach – from a deposit for trash and slave corpses to a Mecca for health and leisure – and then passes to a description of the social segmentation of present day beaches in accordance with social categories such as “intellectuals”, “the poor”, “bronzed”, “gringo”, “gay” and weekend picnicker (farofeiro). This sets the scene for an ethnography of the social relations and the identities which develop on the beaches. These relationships which are generally peaceful but occasionally violent reveal the configurations of people of diverse colors and phenotypes. Day to day life on the beach shows a relatively recent increase in the number of black and “moreno” people from the middle classes as well as the urban poor, who appear to strive to achieve visibility and legitimacy not only on the beach but also in the city as a whole. On the other hand, the rare cases of collective violence (arrastões) signal as critical events, the ever present threat of racial conflict. The beach, therefore, may be thought of as a social space which reflects upon and contributes to ongoing changes in the way that the racial question is imagined in Brazil.