Luzimar Paulo Pereira

Banca examinadora

Prof. José Reginaldo Gonçalves, Presidente;
Profa. Maria Laura Cavalcanti;
Prof. Marco Antonio Gonçalves;
Profa. Márcia Contins;
Profa. Renata Menezes.


Resumo

Minha tese procura abordar o papel das noções de sagrado e profano no interior de certos festejos religiosos do catolicismo popular brasileiro, enfatizando sua participação na constituição de amplos sistemas de trocas rituais. O foco das minhas descrições e análises é dado pela realização das folias dedicadas aos mais diversos santos católicos na cidade mineira de Urucuia. As festas são entendidas como longas peregrinações religiosas por meio das quais grupos de cantadores e tocadores (também conhecidos como foliões) atravessam extensos territórios para visitar as moradias dos devotos católicos e recolher inúmeros bens materiais e imateriais utilizados na produção e financiamento parcial dos acontecimentos do seu encerramento. Em troca, os foliões distribuem bens e serviços morais e religiosos aos doadores. Os deslocamentos dos cantadores e tocadores se revelam como uma alternância dos dois movimentos centrais. De um lado, eles se caracterizam por serem responsáveis por atrair para sua área de influência todo um conjunto de pessoas e objetos. De outro lado, as jornadas também se caracterizam por promover uma máxima expansão dos festejos, por meio da qual se espraiam sobre um amplo território. As folias urucuianas, neste sentido, mais do que apenas atraírem os seus participantes para um centro social e simbólico, são igualmente rituais que levam o sagrado às pessoas e aos seus lugares cotidianos. Os seus movimentos alternados de contração e expansão são responsáveis por modular a realização de inúmeras trocas de bens e serviços  de natureza ao mesmo tempo fisiológica, econômica, social, mágica e religiosa, contribuindo para o estabelecimento de mediações entre inúmeros domínios do mundo social e cosmológico. Não se trata de entendermos os festejos como se fossem constituídos apenas para reavivar na memória dos seus participantes os laços que os unem a si mesmos e a determinados seres sobrenaturais. As folias são constituídas por meio destes laços, ao mesmo tempo em que também são capazes de produzi-los, ao longo de seus processos cíclicos de produção e reprodução.