Cecília Elisabeth Barbosa Soares

A discussão sobre “pirataria”, no quadro não-acadêmico, costuma pautar-se pela pontuação de seu caráter prejudicial a certas esferas da organização social – particularmente, a econômica e a legal. Em virtude da relação do fenômeno “produção pirata” com um tipo de organização capitalista, o senso comum enfatiza uma abordagem do problema em escala macroscópica. O presente trabalho tem como objeto a análise do que é “pirata” em escala microscópica. Para tal, analisaremos uma interação local, na cidade do Rio de Janeiro, da ponta da cadeia produtiva – o consumo – em um estudo de caso específico: as bolsas da marca francesa Louis Vuitton – escolhidas devido à sua extrema recorrência no imaginário dos interlocutores. Nesse propósito, sublinhamos a relevância de dispositivos sócio-culturais na manutenção de uma certa “realidade” econômica, e entendemos o consumo como atividade também dotada de aspectos morais. As situações apresentadas conduzem à identificação da construção local de uma percepção do que é “pirata”, no caso de um bem preciso, considerando o produto já pronto e prestes a ser oferecido ao consumidor. Foram utilizadas como metodologias: trabalho de campo em diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro, onde havia oferta de bolsas Louis Vuitton, de contrafação ou não; entrevistas; análise bibliográfica. A partir desse material desenvolvemos uma explicação da pirataria enquanto “sistema” e enquanto “conceito”, compreendendo melhor a sua relação com o mercado informal, e iniciamos uma exploração de como os atributos morais do consumo, no seu aspecto de atividade social, também são representações de subjetividades – as quais emergem, sobretudo, na hora do uso do bem adquirido. Tornou-se possível, assim, complexificar justificativas aparentemente constituídas apenas de lugares comuns sobre o tema, como a de que “o produto pirata é usado como se fosse o original”, e aprofundar uma pesquisa sobre a relação entre cultura material e a construção de uma hierarquia social local embasada pelo “status”.

 

Banca examinadora:
Prof. Jean-François Véran, Presidente
Prof. Fernando Rabossi
Prof. Fréderic Vanderberghe
Profa. Lívia Barbosa