Kátia Lerner

Resumo

Esta tese tem como objetivo realizar uma análise sobre processos de construção de memória social tomando como objeto de estudo uma coleção de testemunhos de sobreviventes do Holocausto realizada pela Fundação da História Visual dos Sobreviventes da Shoah (Holocausto, em hebraico). Trata-se de uma organização sem fins lucrativos criada nos EUA em 1994 pelo cineasta Steven Spielberg que registrou em vídeo mais de 52.000 testemunhos em 32 países pelo mundo.

Esta análise buscou acompanhar os passos da constituição deste conjunto de objetos (as entrevistas) em suas diferentes etapas ou mediações: o contexto social e cultural em que eles foram adquiridos, o enquadramento desta memória feito pela organização, seus processos (re)classificatórios, a disputa por sentidos estabelecida com outros setores da sociedade, o sistema de catalogação e indexação do material e seus espaços de circulação e exibição.

Dentro dos aspectos observados que caracterizaram a coleção, cabe destacar o papel de destaque assumido pelos sobreviventes, a profunda relação com a linguagem do cinema e a importância da dimensão transnacional e da tecnologia em seu modo de funcionamento. Um outro elemento importante foi a reflexão sobre os sentidos do processo de entrevista para seus integrantes; tratava-se de um ritual onde se deu a construção e transformação da persona “sobrevivente”. A enunciação pública de seu sofrimento sob uma determinada ótica trouxe consigo a reversão de uma condição de ser socialmente “inexistente” ou gozando de um estatuto negativo para uma condição altamente positivada. Isto se deu a partir de um processo coletivo de enterro, de elaboração de luto e dor, que permitiu aos sobreviventes e demais envolvidos “honrar os mortos” e mudar a relação com este passado.

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