O objetivo desta tese é contribuir para uma reflexão sobre a relação entre crônica carnavalesca e pensamento social brasileiro. Na primeira parte do trabalho, proponho uma descrição densa de livros de cronistas tradicionalmente reconhecidos como cronistas carnavalescos. Procura-se construir uma abordagem da crônica como objeto, ao invés de fonte, e que permita ressaltar a heterogeneidade interna do mundo da crônica, como também, forjar um olhar sobre os cronistas que privilegie antes a qualidade de grupo intelectual do que a de grupo profissional ou mediadores culturais. Assim, a análise concentra-se em dois livros publicados em 1933, Na roda do samba, de Francisco Guimarães, o Vagalume (?-1946), e Samba: sua história, seus poetas, seus músicos e seus cantores, de Orestes Barbosa (1893-1966), e mais o livro de Jota Efegê (1902-1987), intitulado Ameno Resedá, um rancho que foi escola (1965), e de Eneida Morais (1904-1971), História do Carnaval Carioca (1957). A partir dessas seqüências, procuro sugerir a proximidade entre este universo de crônica e aspectos centrais ao horizonte do ideário modernista: certo despojamento e simplicidade da linguagem escrita, o uso do verso livre e de epigramas, a bricolagem como técnica para descrever temas populares e folclóricos, a justaposição narrativa entre o tempo passado e o presente, a valorização do abrasileiramento da língua portuguesa e a questão da autoria, entre outros. A propósito dos motivos literários, o Samba e o Carnaval do Rio de Janeiro, evidencia-se nas crônicas duas categorias principais: “nostalgia” e “autenticidade”. Proponho baralhar as formas como cronistas lidam com essas categorias primárias para, na segunda parte, discutir algumas formas de interpelação que o gênero crônica suscita em diferentes gerações de estudiosos de culturas populares urbanas do Rio de Janeiro. A tese, nesse sentido, procura chamar a atenção para dois pontos fundamentais. Primeiro, o domínio do código da escrita, que favorece a emergência de um tipo ambíguo de intelectual, e sua autoridade sobre a interpretação de bases sociais com índices históricos de acentuado analfabetismo. Segundo, a despeito do uso acadêmico da crônica, a continuidade deste gênero literário, seja estimulando a pensar o passado, perspectivas sobre o presente, e perguntas quanto ao futuro da festa, da cidade, do Brasil.

Banca examinadora:
Prof. André Botelho, Presidente, PPGSA/IFCS/UFRJ;
Profa. Elide Rugai Bastos, UNICAMP;
Prof. Maurício Aguiar, UFCG;
Profa. Carmem Felgueiras, UFF;
Profa. Tatiana Siciliano, CNPq.