Rodrigo Marques de Miranda Silva

O objetivo deste trabalho é o de compreender os “males” publicamente reconhecidos e atrelados à operação ou ao uso da tecnologia Internet. Pretende abarcá-los em uma perspectiva integrada. Historicamente, a análise dos fenômenos relacionados à “Grande Rede” privilegia aspectos de promoção da cidadania, da eficiência econômica, de emergência de novas formas de relações interpessoais e de possibilidades de mobilização política. Raramente são considerados em primeiro plano assuntos como “vírus”, “hackers”, células de “terroristas” e de “neonazistas”, pedofilia e outras formas de exploração infantil mediadas pela tecnologia, “invasão de sistemas”, boatos e “lendas urbanas”, golpes bancários, “invasão de privacidade”, “escravização” de máquinas, “derrubada” de sites, novas formas de solidão, compras mal-sucedidas (e também as indevidas), “cyberbulling”, “spam”, entre outros. Essas questões, reconhecidas e discutidas em meios públicos e privados, ganham da parte deste trabalho um tratamento fundamentalmente não-normativo. Para alcançar seu objetivo, esta tese percorre um trajeto cujo ponto de partida é a reflexão em torno dos conceitos de “pânico moral”, “risco” e “medo”. Define: a) as distinções necessárias entre eles; b) suas múltiplas convergências possíveis; c) alguns limites nos quais esbarram. O enfoque proposto da Sociologia das Ameaças erige-se como uma alternativa analítica para abarcar dimensões-chave e ultrapassar determinadas tensões constitutivas próprias às ferramentas teóricas anteriormente citadas. O universo empírico deste estudo é composto por notícias e artigos publicados na Imprensa brasileira. Há o recurso a técnicas de Análise de Conteúdo, combinando abordagens para obtenção de dados de natureza qualitativa e quantitativa. O desenvolvimento redunda, em um primeiro momento de síntese, na construção de uma tipologia de “males” próprios à Internet. Examinados como “processos de Ameaça” (e, não, como “ansiedades” ou “sensações”) é operado um levantamento sistemático de suas dimensões básicas: os atores envolvidos; os danos arrolados; a repartição de responsabilidade entre os vários implicados; a participação do Estado, de “peritos” e de empresas; entre tantos outros aspectos que a Sociologia das Ameaças se propõe a considerar. Os arranjos simbólicos coletados permitem relacionar construções culturais expressas a respeito do “lado sombrio” da Internet a questões sociológicas mais amplas. Como parte de seus resultados, o trabalho apresenta uma caracterização da especificidade da “Segurança Digital”, dos enquadramentos desses novos “males”, da relação deles com o fenômeno da “globalização”, da “reação social” a eles, da temporalidade em que se inscrevem. Em sua conclusão a reflexão retoma suas bases para estabelecer uma crítica empiricamente situada às possibilidades analíticas dos conceitos de “pânico moral”, “risco” e “medo”.

 

 

Palavras-chave: Internet, Pânico Moral, Risco, Medo, Ameaças