Resumo

Esta pesquisa investiga um grupo de reflexão para homens “autores de violência conjugal”. Estes homens são encaminhados para o grupo pela justiça como uma medida alternativa à pena privativa de liberdade. O movimento feminista criou grupos de reflexão para conscientizar as mulheres a respeito da dominação masculina. Posteriormente, com o surgimento dos estudos e preocupações com os homens e as masculinidades, os homens criaram também grupos para pensar as transformações que estavam ocorrendo nos papéis masculinos. O avanço nos estudos e debates sobre a violência conjugal, possibilitou o questionamento da vitimização da mulher, que vigorava até então. Se antes só as mulheres eram foco das políticas públicas voltadas para o combate da violência conjugal, surge a preocupação de o que fazer com o homem agressor. Mudanças na justiça brasileira possibilitaram a inserção do grupo de reflexão para homens “autores de violência conjugal” como uma medida alternativa. Considero que a maioria dos participantes do grupo é das classes trabalhadoras, que tendem a possuir um universo moral distinto daquele pautado em um ideal moderno/igualitário e que possivelmente os conceitos que são operados no grupo de reflexão, têm como referencial, sobretudo, este ideal igualitário de família e conjugalidade. O objetivo da pesquisa é perceber, então, quais são os limites e possibilidades desta “proposta reflexiva”, já que os sujeitos envolvidos parecem possuir um universo moral e valoratïvo diverso do que vai ser tomado como a “base” para a “reflexão”. Muitas vezes o discurso e instituições sociais inspiradas no ideário individualista/feminista encontram limites e tensões quando em contato com a realidade local. O que pôde ser observado na pesquisa é que o grupo de reflexão para homens “autores de violência conjugal” acaba tendo conseqüências não intencionais, já que os participantes utilizam o espaço do grupo como uma forma de se solidarizarem e construírem urna identidade de “vítima” que os ajuda a negar ou minimizar os atos violentos contra as suas parceiras.

Palavras chaves: Violência conjugal, homens autores de violência, modernidade e tradição, grupos de reflexão.