Resumo:
O conjunto do texto é um estudo sobre as relações cambiáveis entre o gesto e o exemplo na figuração dos gestos exemplares, aqueles gestos que nos afetam em nosso discernimento dos bens, dos valores ou dos modos de vida. O fio condutor inicial é uma questão aparentemente simples, mas bastante ardilosa: o que significa “fazer um gesto”? A resposta a essa questão exige superar alguns limites das teorias da ação e da restrição do gesto ao âmbito da comunicação não verbal, indo em direção ao que Vilém Flusser propõe como uma “teoria geral dos gestos”. As filosofias que pensam com os gestos, que em última instância problematizam a impregnação gestual do pensamento, como as de Merleau-Ponty, de Giorgio Agamben, de Flusser, de Michel Guérin, assim como de outros autores, serão retomadas aqui numa discussão sobre os limites logocêntricos da descrição da ação. Quais as implicações para a ação quando a pensamos como uma articulação ou uma modulação de gestos? Essas filosofias são atravessadas por uma ênfase comum: a experiência do gesto constitui um momento de incoação que está na origem da significação e da valoração. Na Parte I, discuto algumas travessias possíveis quando pensamos com os gestos: não somente de domínios temáticos, como também entre o literal e o figurado, entre o físico e o metafísico, entre o movimento e o significado. Seguindo esses deslocamentos, que não estão restritos à filosofia, mas que são problematizados também na crítica literária e na antropologia, proponho uma indefinição do gesto como um afastamento teórico de suas reduções técnicas, sociológicas e linguísticas. Na Parte II da tese desenvolvo uma análise dos “gestos exemplares” como momentos da conduta que nos permitem “ver” como as pessoas, através de seus gestos, ao se encontrarem no limite da moralidade, são levadas a figurar sua própria ética, num esforço de discernimento conjunto em torno do que importa. A expressão “gestos exemplares” pode ter outras formulações (“belo gesto”, por exemplo), mas o crucial é olhar para o que ela aponta: uma conduta que concentra em torno de si uma afirmação ética que nos move. Não me refiro a uma “dimensão ética” do ato, mas às linhas que ao definirem os contornos do movimento delineiam uma ética possível, enquanto um modo de vida ou um modo de valoração que só é inteligível pelos movimentos que revelam um contornar-se, que é também um complexo de respostas sobre o que é possível fazer. A utilização do adjetivo “exemplar” não é casual, no entanto, pois recupero a noção de exemplaridade para entender o processo de constituição da admiração e da valoração. A segunda questão que funciona como fio condutor é: o que significa “dar o exemplo”? Argumento que a exemplaridade não é uma qualidade que se atribui ao ato de fora, ou que se atribui a partir do seu final, da sua conclusão, mas uma preocupação que é interna ao desdobramento do ato. A força do gesto exemplar não pode ser explicada, por isso, por algum motivo moral ou pragmático. O exemplo e o gesto complicam os bens e os fins. A sua força deve ser entendida enquanto um fenômeno que envolve ou que implica o espectador, e também o intérprete, numa série de preocupações concretas e imanentes ao ato, tal como a posição e o ritmo dos corpos, a velocidade dos movimentos, o tempo de reação, a condução de um “momento”, a inversão das expectativas, a tangibilidade, o senso de medida, mas também o senso de raridade – quando as pessoas capturam ou se tornam sensíveis a respostas pouco óbvias -, a constituição da presença – quando apontam com seus gestos para objetos, pessoas e aspectos marginais ou até então irrelevantes -, entre outros aspectos. As fronteiras entre “dar um exemplo” (textual) e “dar o exemplo” (de conduta) se estreitam, pois o exemplo textual só se torna vivo quando especulamos sobre seus gestos implícitos, assim como o gesto por si só, sem o horizonte da exemplaridade, se perde em meio aos outros movimentos. Essa analítica do gesto exemplar, partindo dos movimentos concretos, nos conduz à figuração das noções mais abstratas, como o cuidado, a gratuidade e a violência, noções importante por congregarem em torno de si muitas figuras éticas exemplares. O conjunto de gestos considerados aqui é bem heterogêneo, pois não segue um recorte temático. Ao longo da tese, que pode ser vista como uma sucessão de exemplos e de gestos, utilizo cenas retiradas de etnografias, de filmes, de vídeos amadores, de relatos autobiográficos, da filosofia e da literatura, abordando desde gestos paradigmáticos como o de Rosa Parks até gestos mais cotidianos. Todos esses gestos estão unidos por um mesmo traço distintivo, seja na forma do relato literário ou na sequência visual de um vídeo: todos eles lidam com algum tipo de irresolução, ou por uma mesma potência incoativa, que se revela tanto na figura da hesitação ou da suspensão dos movimentos quanto na do silêncio que atravessa a fala e que constitui a voz. A hesitação e o silêncio podem ser considerados como hiatos que operam por entre os signos constituídos, que revelam a preocupação com o discernimento ético da situação, ou com o discernimento de um juízo próprio, que não se dá enquanto uma apreensão intelectual do dever, tal como uma questão “o que eu devo fazer?”, mas como uma apreensão gestual imperativa em já sou levado ou conduzido por uma impossibilidade de não fazer algo.
Palavras-chave:
gestual;exemplaridade;dimensão ética
Orientador:

ELINA GONCALVES DA FONTE PESSANHA