Maria Soledad Etcheverry de Arruda Gomes

Banca examinadora

José Ricardo G. P. Ramalho
Adalberto Cardoso
Bernardo Sorj
José Maurício Domingues
Maria Ligia de Oliveira Barbosa

Resumo

Este estudo teve como objetivo desenvolver uma reflexão sobre as transformações do mundo do trabalho através das narrativas dos protagonistas de um enredo sobre empregabilidade. Trata-se de trabalhadores que perderam seus vínculos formais de trabalho no processo de privatização das grandes empresas estatais do setor elétrico brasileiro durante a década de 90, e que posteriormente ao desligamento construíram suas estratégias de reinserção ocupacional. A utilização da noção de empregabilidade solicitou um necessário distanciamento e esclarecimento, por representar uma agenda política, que nas suas duas versões contemporâneas definem orientações para tratamento da crise do trabalho. Argumentamos que a “empregabilidade de iniciativa”, construída sobre as bases do paradigma da flexibilidade e do modelo das competências, e responsabilizando exclusivamente o indivíduo pela conquista do trabalho, difunde-se como tradutor hegemônico e naturaliza os atributos para a inserção ocupacional. Compreendemos que a “empregabilidade interativa”, a recolocar o indivíduo no campo da interação, a sinalizar para a responsabilidade de todos os agentes envolvidos no processo de negociação de uma ocupação, oferece uma perspectiva mais adequada e abrangente para lidar com a empregabilidade. Visando reconduzir esta noção para um enfoque de análise e dotá-la de valor heurístico – entendendo que a empregabilidade não se define previamente por um atributo do “ser empregável”, mas refere-se a estratégias de negociação de agentes individuais reflexivos e criativos, num contexto de interação onde devem ser contempladas as estratégias dos outros agentes do mercado – construímos sua articulação com os conceitos de trajetória, transição narrativa e identidade. A história de empregabilidade vivida pelos entrevistados foi vista a partir de uma transição nas trajetórias, onde a quebra de perspectivas de carreira implicou em reorganizações identitárias significativas. Em vista disso, avançamos para a idéia do sentido do trabalho como um componente importante na reflexão sobre a empregabilidade. Esta orientação de foco é estimulada a partir dos relatos que expressaram “tenho uma ocupação, mas não um trabalho”, ou então “antes de perder o emprego, perdemos o trabalho”.

ABSTRACT
This study intends to develop a reflection about the transformations in the employment situation through narratives about career experience. It examines workers who lost their formal work links in the process of privatization of the large state industries of the Brazilian electrical sector during the decade of the 90s, and who, after the loss, reconstructed their occupational situation. The use of the notion of “employability” requires a necessary distancing and clarifying, because it represents a political agenda, which defines the treatment of the employment crisis in its two contemporary versions. We argue that the “employment initiative”, based on the construction of the paradigm of flexibility and on the model of competence, both placing the exclusive responsibility on the individual for his ability to be employed, has spread as the hegemonic interpretation and has naturalized the attributes for insertion in the occupational world. We advance the concept of “interactive employability”, repositioning the individual in the field of interaction and underscoring the responsibility of all those involved in the employment negotiation process, as a more adequate and inclusive perspective for dealing with employability. Applying this notion as an analytic focus and giving it heuristic value – understanding that employability is not a pre-defined attribute of “being capable of employment” but rather is the result of negotiation strategies of reflexive and creative individuals in an interactional context with other actors in the market – we articulate it with the concepts of trajectory, narrative transition and identity. The employment history lived by those interviewed was seen from the point of a transition in their trajectories, where perspective of the career rupture implied a significant reorganization of identity. Taking this into account, we advance the idea that the meaning of work is an important component in the reflection about employability. This focus of orientation is stimulated by the narratives that express “I have a job, but not a career”, or “before loosing the job, I lost the career”.