Esta tese aborda as relações entre sofrimento, violência e política, a partir da experiência e do protagonismo de familiares de vítima de violência, articularmente através do estudo de uma modalidade de casos abarcados pela categoria desaparecimento forçado. Para apreendê-las descrevo e analiso o que denomino narrativas sobre o terror e o sofrimento, a partir das quais é possível acessar as gramáticas morais e políticas dos familiares de vítima. O desaparecimento forçado corresponde, dentro da problemática geral dos desaparecimentos, na expressão de Bachelard, a um “caso particular do possível”. Ele é tomado como um evento crítico e uma prática do repertório da linguagem da violência urbana. A partir das histórias de desaparecimento forçado são construídos pequenos mapas da dor que contam as trajetórias dos familiares diante do evento. Ao percorrer essas histórias, várias categorias vão se construindo, entre elas as de vítima, familiar de vítima e desaparecimento forçado. As histórias tratam de experiências desenraizadoras, cujo limite é a percepção e o sentimento de não pertencer a uma humanidade comum. Morte violenta, dor, sofrimento, terror, luto, e também amor e justiça compõem o repertório temático desenvolvido ao longo da tese. São experiências que se situam entre a resignação e a esperança, entre um tempo do choque e um tempo da política. O tempo é um agente que “trabalha” nas relações, transformando sentidos e significados para as experiências de violência e dor vividas pelos familiares. Estas experiências, se por um lado, destroem ou impõem obstáculos à capacidade de comunicar, por outro, também criam comunidades morais, emocionais e políticas a partir de quem padece o sofrimento. Estas comunidades morais alentam a recuperação das pessoas enquanto sujeitos e se convertem em um veículo de recomposição cultural e política. É neste contexto de liminaridade, de tensão entre voz e silêncio, de passagem de um tempo do choque para um tempo da política, que os familiares de vítima se constroem enquanto sujeitos da dor e agentes da dignidade. É da dimensão moral da vida e da morte, e dos significados elaborados para estes acontecimentos a partir da maternidade, da religião, de percepções de justiça e injustiça, que se constituem as gramáticas morais e políticas e os modos de fazer política dos familiares. Diante do desaparecimento, as práticas de luto transformam-se em práticas reivindicativas de justiça e, enquanto a justiça não se realiza, não para de crescer a “família dos familiares de vítima”.

 

Banca examinadora:
Prof. Luiz Antonio Machado da Silva, Presidente
Prof. Michel Misse
Profa. Elina Pessanha
Profa. Adriana Vianna
Prof. Luis Carlos Fridman