Ana Paula Massadar Morel

Este estudo propõe um diálogo entre a antropologia e a antropofagia de Oswald de Andrade. Através de uma análise ensaística de alguns escritos do autor estabelecemos uma conexão com problemas e questões da disciplina antropológica, acreditando que a literatura pode servir de alimento para esta. Para isso, aprofundamos a proposta oswaldiana de “reabilitação do primitivo” e estabelecemos a discussão em dois fios condutores: a alteridade e a modernidade. No primeiro, abordamos a recuperação da filosofia primitiva pelo antropófago e a constituição da “alteridade antropofágica”, um tipo de alteridade distinta da constituída pela noção de indivíduo moderno. No segundo, vemos como a partir dessa recuperação Oswald de Andrade propõe um projeto político que desconserta os paradigmas da modernidade ocidental. Ambos os fios nos possibilitam desenhar a proposta de uma “metafísica canibal”, que em forte conexão com a antropologia desenvolve um pensamento contra o Estado e voltado para o Outro. Se a antropologia pode ser considerada como ciência da alteridade, podemos dizer que Oswald de Andrade faz uma operação estritamente antropológica, pois consegue através do contato com a literatura sobre as sociedades ameríndias repensar o próprio modo de vida (e a metafísica) do Ocidente. Por último, o acúmulo do debate nos permitirá pensar a atualidade da proposta antropofágica e sua vivacidade no mundo, através de encarnações e relações possíveis desta com teorias e movimentos sociais recentes.

 

Banca examinadora:
Prof. Jean-François Véran, Presidente
Prof. Eduardo Batalha Viveiros de Castro
Prof. Amir Geiger