Pedro Moutinho Costa Soneghetti

Resumo:

O presente trabalho está baseado em uma etnografia desenvolvida em Machadinha, no município de Quissamã (Região Norte Fluminense), entre 2014 e 2015, e toma como ponto de partida a investigação sobre as diferentes formas pelas quais aquele lugar, de múltiplos contornos, é produzido, percebido e vivenciado pelas várias pessoas que ali se relacionam. Seu conjunto arquitetônico, que serviu como sede de um grande estabelecimento rural de lavoura, foi “tombado” como “patrimônio histórico” no fim da década de 1970 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (INEPAC) e “restaurado” no início dos anos 2000 pela Prefeitura Municipal de Quissamã (PMQ). Na primeira década deste século, os moradores do local e de seus arredores foram reconhecidos pelo Estado brasileiro como “remanescentes das comunidades dos quilombos”. Assim, nesse contexto marcado por diversas agências e múltiplas categorias, Machadinha podia ser classificada ao mesmo tempo como comunidade, fazenda, complexo cultural e quilombo. A partir da análise das “percepções” e “práticas do espaço” em Machadinha, busco refletir sobre as transformações acionadas discursivamente para descrevê-la, analisando os “discursos do patrimônio” ali mobilizados. Sugiro que a transformação de Machadinha em complexo cultural possa ser pensada enquanto a produção de um “fragmento”, marcada pela “monumentalização” do espaço e do cotidiano da comunidade. Esse processo, no entanto, ocorre paralelamente à apropriação e produção criativa do espaço, feita pelos moradores e demais freqüentadores do lugar, que pode ser entendida enquanto “cotidianização” do “monumento”.

Palavras-chave:

Espaço;Patrimônio;Quilombo;Machadinha;Quissamã

Abstract:

This work is based on an ethnography conducted in Machadinha, in the municipality of Quissamã (Northern Region of the state of Rio de Janeiro), between 2014 and 2015. The starting point for this research is the investigation of the different ways by which that locality, with its multiple contours, is produced, perceived and experienced by several people. Machadinha’s architectural complex, which served as the headquarters of a large rural farming property, was listed as a “historic landmark” in the late 1970s by the State Institute of Cultural Heritage of Rio de Janeiro (INEPAC) and “restored” in the early 2000s by the Municipality of Quissamã (PMQ). In the first decade of this century, residents of the locality and its surroundings were recognized by the Brazilian government as “remnants of quilombo communities”. Thus, in this context marked by several agencies and multiple categories, Machadinha could be classified simultaneously as a community, farm, cultural complex and quilombo. Based on the analysis of the “perceptions” and “practices of space” in Machadinha, my aim is to reflect on the changes triggered discursively to describe it and analyze the “discourses of heritage” that take place there. I suggest that the transformation of Machadinha into a cultural complex can be seen as the production of a “fragment,” marked by the “monumentalization” of the community’s space and everyday life. This process, however, takes place in parallel with the appropriation and creative production of space, performed by the locals and other visitors to the place, which can be understood as making the “monument” seem “everyday-like.”

Keywords:

Space;Quilombo;Machadinha;Quissamã;cultural heritage

Orientador:

JOSE REGINALDO SANTOS GONCALVES