O objetivo desta dissertação é mapear e analisar etnograficamente as estratégias de vida das costureiras do Pólo da Moda de Petrópolis (RJ). Priorizando o ponto de vista dessas costureiras a respeito das suas experiências e a narrativa de suas trajetórias, exploraremos as relações sócioprodutivas que permeiam a configuração produtiva local, as possibilidades de inserção na produção e a centralidade da confiança nas relações de negócios, de trabalho e de ajuda. As estratégias de vida formuladas transcendem o que se costuma chamar de econômico; dependem das circunstâncias em que elas estiverem vivendo, das suas relações pessoais, dos seus interesses em jogo e das oportunidades que surgem. A aposta nas relações pessoais atua de maneira determinante no que diz respeito à inserção e à reprodução dos atores no contexto do Pólo. A distinção entre conhecidos e não conhecidos e a categoria pessoa de confiança são cruciais para lançarmos luz sobre como muitas das relações com parentes, amigos, vizinhos e conhecidos desses conhecidos são alguns dos principais motores do universo social em questão. A análise da distinção entre trabalho e ajuda e dos contextos em que essas duas categorias se sobrepõem é onde culminará a discussão sobre a articulação entre confiança, relação pessoal e as atividades realizadas no âmbito da indústria do vestuário em Petrópolis. Também mostraremos etnograficamente que o grau de subordinação das costureiras externas em suas relações de trabalho é variável e está relacionado às particularidades de cada relação. Ao mesmo tempo em que a facção é uma forma de gestão de mão-de-obra e controle de produção vantajosas para o dono de confecção, essa forma de trabalho incorporada à estratégia de vida da costureira é para ela mais do que uma mera exploração do seu trabalho. As costureiras do Pólo experimentam um certo empoderamento provocado pela pluralidade de formas de inserção na produção existentes na cidade, articulada à facilidade de trânsito entre tais formas. Esperamos que este estudo possa gerar novas reflexões sobre a configuração produtiva do Pólo de Moda de Petrópolis e sobre as estratégias de vida das suas costureiras e possa também orientar a reflexão de pesquisadores que estudam outros Pólos de Moda no Brasil.

 

Banca examinadora:
Prof. Fernando Rabossi, Presidente
Profa. Bila Sorj
Prof. Federico Neiburg