Banca examinadora

Prof. Dra. Elsje Maria Lagrou
Prof. Dra. Esther Jean Langdon
Prof. Dra. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti
Prof. Dr. Carlos Fausto

Resumo

Os corpos Rikbaktsa dissemina atributos relacionados à “humanidade”, sobretudo a capacidade de “agência”. Vivos e mortos, seres metafísicos, vegetais, animais e coisas podem ter – e normalmente têm – “agência”, de formas variadas e em múltiplos contextos, tornando qualquer distinção definitiva entre a sociedade dos vivos, natureza e sobrenatureza impraticável, não pertinente e decididamente pouco produtiva. Por outro lado, esta “partilha” de atributos permite e, de certa forma, compele a interações contínuas entre estes seres e domínios: relações que podem ser predatórias, mas também produtivas e curativas. No contexto do mundo povoado por semelhanças e proximidades – mas não identidades absolutas – o “corpo” dos vivos demonstrou ser um diferencial importante. Do dormir ao acordar, o “corpo” é exposto a riscos, seja através das relações envolvidas nas socialidade aldeã , posturas corporais, atitudes mentais e alimentação,seja nos sonhos ou no que eles prenunciam. Enquanto se têm “corpo”, deve-se buscar obediência, a uma infinidade de recomendações, uma ética individual com o intuito de “manter a vida”. Sobreviver indica êxito da construção corporal Rikbaktsa, apesar deste ser um processo que nunca se completa. Mesmo os ritos que operam mais intensamente esta construção são permeados pelo risco e projetam-se no tempo, encontrando-se abertamente sujeitos ao insucesso. A contínua e quase inevitável interação entre seres metafísicos – incluindo-se mortos – e vivos é, assim, um incremento fundamental da “labilidade” ou “reversibilidade” das categorias de identidade/alteridade, solidariedade/inimizade e até mesmo parentesco entre grupos e pessoas. O resultado é uma extrema diferenciação interna constituída de “negociações” ativas entre semelhanças e distinções. A “sócio-cosmologia” Rikbaktsa permite-nos desconfiar tanto de uma alteridade que seja conceitualmente absoluta e do movimento que a expulsa providencialmente para além do socius, quanto na possibilidade de sua neutralização ou extinção de qualquer domínio considerado. Refiro-me aqui mais precisamente à convivência aldeã e à co-resistência, mas o mesmo vale para ocasiões rituais ou guerreiras e até para as relações Rikbaktsa com outros tipos de seres, dimensões em que jamais assumem a feição de uma totalidade indiferenciada. Se a etnografia Rikbaktsa não tem senão provisoriamente um centro a partir do qual podemos descrevê-la, sua socialidade não é por isso menos “consistente” ou “efetiva”. Este procura explorar esta complexa teoria que concerne à interação, geração, produção e destruição de corpos e pessoas em um mundo povoado por sujeitos que abrangem o que se costuma compartimentalizar em diferentes reinos, espaços e posições.