Este trabalho analisa o discurso da organização não governamental (ONG) Católicas pelo Direito de Decidir. Fundada em 1993, a Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) é uma entidade feminista de caráter inter-religioso. O objetivo da CDD é defender a autonomia e os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres com base nos elementos do próprio catolicismo. Parte importante de sua atuação é voltada para a descriminalização e legalização do aborto. Para as próprias integrantes da CDD, o lugar que ocupam é marcado por uma tensão entre o catolicismo e o feminismo. O objetivo deste trabalho é discutir de que forma as integrantes da CDD constroem esse lugar que ocupam e como dão conta dessa ambivalência. Para tanto, busco responder: de que forma o catolicismo e o feminismo foram construídos em suas trajetórias? Que elementos da ideologia feminista foram incorporados no discurso da ONG? Que elementos do catolicismo foram incorporados e quais foram deixados de lado? Essas questões são discutidas a partir do discurso da CDD sobre o aborto e sua defesa da legalização da interrupção voluntária da gravidez. Afirmo que a percepção dessa tensão tornou necessário o desenvolvimento de novos enquadramentos interpretativos que incorporassem ambas as perspectivas católica e feminista. Dessa forma, a CDD desenvolve uma estratégia discursiva que afirma que o aborto é parte dos direitos reprodutivos e denuncia a Igreja Católica como um entrave à realização desses direitos, ao mesmo tempo em que afirma que o catolicismo é plural e não se reduz ao catolicismo oficial. Contudo, a CDD não oferece uma interpretação concorrente do catolicismo, optando, assim, por enfocar os elementos do catolicismo que autorizam a decisão individual. Com isso, enfatiza o recurso à consciência na tomada de decisões morais difíceis, ao mesmo tempo em que desloca a discussão da vida do feto para a mulher.

 

Banca examinadora:
Profa. Bila Sorj, Presidente
Profa. Maria Eloisa Martin
Profa. Naara Luna