Em 1915, Afonso Arinos proferiu em São Paulo um ciclo de conferências seguido de um sarau de encerramento no Teatro Municipal organizado por ele. Em 1917, os eventos foram reunidos no livro póstumo Lendas e tradições brasileiras. Este texto propõe uma travessia rumo ao passado modernista com base nesse livro-documento. A voz de Arinos indica a formação de uma visão de mundo forjada entre segmentos da elite intelectual da época em que a valorização das tradições folclóricas delimita lugar-chave na busca de um ideal de brasilidade. Remete a uma visão de tais tradições e a temas que ressoariam na obra posterior Mário de Andrade, presente ao sarau de encerramento e admirador das conferências. Ao mesmo tempo, ao trazer exímios músicos populares vindos do Rio de Janeiro conduzidos pelo violonista João Pernambuco para o sarau de encerramento do ciclo, a perspectiva proposta nas conferências se desestabiliza e se expande. A presença dos músicos no sarau ilumina a pujança da música popular urbana da época, bem como a agência e a criatividade de seus artistas. Vem embaralhar as fronteiras entre as cenas culturais erudita, folclórico-tradicional e popular-urbana, e abrindo brechas na perspectiva de brasilidade emoldurada apenas pela valorização das culturas tradicionais.