EMENTA:

A formalização estética de circunstâncias de caráter social significativas como modos de existência constitui problemática central da Sociologia da Literatura. Nesse sentido, a disciplina objetiva discutir as relações entre o romance como gênero narrativo e a formação do Estado-nação e da cidadania no Brasil. Não se trata, contudo, de historiar a presença de “representações” da “identidade nacional” no plano temático da narrativa, mas antes de investigar se e como em seus aspectos formais também o romance brasileiro constitui matriz de uma “comunidade política imaginada”. Fundamental nessa problemática são as diferenças substantivas do surgimento e desenvolvimento do romance na Europa, fortemente associado à ascensão do “individualismo” e à separação das esferas pública e privada, e do brasileiro, cujos pressupostos sociais e formais estão marcados pelo “familismo” e pelas “relações de favor”. A abordagem comparativa proposta permitirá ainda o aperfeiçoamento, no plano metodológico, de perspectivas de análise sociológica das relações entre literatura e sociedade em bases distintas daquelas que tendem a reduzir a primeira a “reflexo” ou “fonte” de conhecimento da segunda.

PROGRAMA:

I. Estado-nação e romance

ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989.

MORETTI, Franco. Atlas do romance europeu, 1800-1900. São Paulo: Boitempo, 2003.

II. Individualismo e Familismo

WATT, Ian. A ascensão do romance (estudo sobre Defoe, Richardson e Fielding). São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Livraria Duas Cidades/Editora 34. 5a edição. 2000.

MORETTI, F. “O século sério – o romance europeu do oitocentos”. Novos Estudos. São Paulo, no. 65, março de 2003, pp. 3-33.

CANDIDO, A. “Dialética da Malandragem”. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993, pp. 19-54.

III. Favor Vs. Direitos

ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de Milícias. São Paulo: Edição Saraiva, s.d. (Edição original: 1853).

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Dom Casmurro. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1962. (Edição original: 1900).

MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1958. (Edição original: 1942).

ANJOS, Cyro dos. O amanuense Belmiro. In: Dois Romances. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957. (Edição original: 1937)

BIBLIOGRAFIA DE APOIO

BENDIX, Reinhard. Construção nacional e cidadania. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

FRANCO, Maria Sílvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. 4a edição. São Paulo, Editora da UNESP, 1997.

REIS, Elisa Pereira. “O Estado nacional como ideologia: o caso brasileiro”. In: Processos e escolhas. Estudos de sociologia política. Rio de Janeiro, Contra Capa, 1998, pp. 67-90.

TILLY, Charles. Coerção, capital e estados europeus, 990-1992. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA

ALEXANDER, J. C. Sociologia cultural. Formas de classificiación en las sociedades complejas. Barcelona: Anthropos, 2000.

ARANTES, P. E. “Nação e reflexão”. In: Zero à esquerda. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004, pp. 79-108.

BHABHA, H. K. (Ed.). Nation and narration. Londres: Routledge, 1990.

BALAKRISHNAN, G. (Org.): Um mapa da questão nacional. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.

BECK, U. e BECK-GERNSHEIM E. La individualización. El individualismo institucionalizado y sus consecuencias sociales y politicas. Madrid, Paidós 2003.

BOTELHO, A. Aprendizado do Brasil. A nação em busca dos seus portadores sociais. Campinas, Editora da UNICAMP, 2002.

_____. Estado-nação e rotina intelectual. Legado modernista e cultura política no Brasil. Bauru, SP: EDUSC, no prelo.

EAGLETON, T. Teoria da literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

FERNANDES, Florestan. A Revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

GELLNER, E. Nacionalismo e democracia. Brasília, DF: Editora da Universidade de Brasília, 1981.

GIDDENS, A. O Estado-nação e a violência. São Paulo: EdUSP, 2001.

HABERMAS, J. “O Estado-nação europeu frente aos desafios da globalização”. Novos Estudos. São Paulo, 43, 1995, pp. 87-101.

HOBSBAWM, E. J. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

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JAMESON, F. O inconsciente político. A narrativa como ato socialmente simbólico. São Paulo: Ática, 1992.

LUHMANN, N. O amor como paixão. Para a codificação da intimidade. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.

LUKÁCS, G. Ensaios sobre literatura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

OEHLER, D. O velho mundo desce aos infernos. Auto-análise da modernidade após o trauma de junho de 1848 em Paris. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ROCHA, J. C. de C. Literatura e cordialidade. O público e o privado na cultura brasileira. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1998.

SCHLUCHTER, W. Paradoxes of Modernity. Culture and Conduct in the Theory of Modernity. Stanford: Stanford University Press, 1996.

SCHWARZ, R. “Sobre O amanuense Belmiro”. In: O pai de família e outros ensaios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

____. Duas meninas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

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WAIZBORT, L. “Influências e invenção na sociologia brasileira (desiguais porém combinados)”. In: MICELI, S. O que ler na ciência social brasileira, 1970-2002. São Paulo: ANPOCS, Editora Sumaré; Brasília, DF: CAPES, 2002, pp. 85-174.

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____. “Las comunidades políticas”. In: Economia y sociedad. México, DF, Fondo de Cultura Económica, 1992, pp. 661-694.

____. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.