Programa

A tríade magia / religião / ciência acompanha a antropologia desde os primórdios da sua institucionalização no século XIX. Seus elementos, no entanto, não mantinham então entre si uma relação simétrica. Pois enquanto a magia e a religião se tornaram temas clássicos da disciplina, a ciência foi excluída dos objetos e preservada como dimensão constitutiva da sociedade da qual parte o olhar do antropólogo. Em outros termos: indícios da partição que consagrou uma associação privilegiada entre os objetos e temas da antropologia e a noção de primitividade (ou de tradicionalidade).
Este curso pretende pensar a mesma tríade a partir de outras relações. Beneficia-se, em primeiro lugar, da consolidação dosscience studies – e das contribuições da antropologia nesse campo e dos impactos dele sobre ela. Em seguida, aposta nas conexões que podem existir entre modernidade e religião (devemos à modernidade nossa definição de “religião”; a “religião” foi um marco fundamental na construção da modernidade). Por fim, enxerga na magia um conceito que pode ter uma aplicação que não a confina ao terreno da primitividade ou do metafísico – remetendo a uma certa articulação entre práticas e discursos, a um certo regime de verdade. De modo geral, se trata de discutir o que acontece com a magia quando a ciência também se torna objeto da antropologia e o que acontece com a religião quando se reconhece a relação positiva que mantém com a modernidade (necessariamente redefinida).

18.03 – Apresentação do curso

I. Panorama: temas, questões, terrenos…
01.04 – TAMBIAH, Stanley. Magic, Science and Religion and the Scope of Rationality (The Lewis Henry Morgan Lecture 1984). Cambridge: Cambridge University Press, 1990; Caps. 1, 2, 3 e 4; p. 1-83.

II. Em torno dos Azande
08.04 – EVANS-PRITCHARD, E.E. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande [1937]. Rio de Janeiro: Zahar, 2004; Caps. 1, 2, 3, 4, 8, 9 e 11; p. 33-89, 136-174, 186-210.
15.04 – MIDDLETON, J. e WINTER E. H. (eds.) Withcraft and Sorcery in East Africa. Londres: RKP, 1963; p. 1-26.
– DOUGLAS, Mary. “Brujería: el estado actual de la cuestión” [1970]. In: Vários. Ciência y Brujería. Barcelona: Anagrama, 1976; p. 31-69.
29.04 (sessão dupla)
– WINCH, Peter. “Understanding a primitive society”. In: Wilson (ed.). Rationality. Oxford: Basil Blackwell, 1970; p. 78-111.
– WINCH, Peter. “Language, belief and relativism”. In: Trying to make sense. Oxford: Basil Blackwell, 1987; p. 194-207.
– HORTON, Robin. “El pensamiento tradicional africano y la ciencia occidental” [1967]. In: Vários. Ciência y Brujería. Barcelona: Anagrama, 1976; p. 75-117.
– LATOUR, Bruno. “Comment redistribuer le Grand Partage”. La Revue du M.A.U.S.S., 1, 1988, pp. 27-65.

III. Outras Magias
06.05 – TAMBIAH, Stanley. “The magical power of words”. Man (NS), 3 (2), 1968, p. 175-208.
– TAMBIAH, Stanley. “Form and meaning of magical acts” [1973]. In: Culture, Thought and Social Action. Cambridge: Harvard University Press, 1985; p. 60-86.

13.05 – HIRST, Paul. “Is it rational to reject relativism?”. In: J. Overing (ed.). Reason and Morality. Londres: Tavistock Publications, 1985; p. 85-103.
– GELL, Alfred. “The technology of enchantment and the enchantment of technology”. In: J. Coote e A. Shelton (eds.). Anthropology, Art and Aesthetics. Oxford: Clarendon Press, 1992; p. 40-63.

IV. Ciência Etnografada
20.05 – LATOUR, Bruno. A Esperança de Pandora. Ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. Bauru: EDUSC, 2001; p. 39-97.
03.06 – VASCONCELOS, João. “Espíritos clandestinos: espiritismo, pesquisa psíquica e antropologia da religião entre 1850 e 1920”. Religião e Sociedade, 23 (2), 2003, p. 92-126.
– GALISON, Peter. “Einstein’s clocks: the place of time”. Critical Inquiry, 26 (2), 2000, p. 355-389.

V. Modernidade?
10.06 – LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994 (Caps. 1, 2 e 3).
17.06 – LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994 (Caps. 4 e 5).

VI. Religião e Modernidade
24.06 – HARDT, Michael e NEGRI, Antonio. “Duas Europas, duas modernidades”. In: Império. São Paulo: Record, 2001; p. 87-109.
– ASAD, Talal. “Religion, Nation-State, Secularism”. In: P. Van der Veer e H. Lehmann, (eds.). Nation and Religion. Princeton: Princeton University Press, 1999; p. 178-196.
01.07 – TOULMIN, Stephen. Cosmopolis, the Hidden Agenda of Modernity. Chicago: University of Chicago Press, 1990; p. 1-4, 45-137.
08.07 – LATOUR, Bruno. Petite Réflexion sur le Culte Moderne des Dieux Faitiches. Paris: Synthélabo, 1996. (em português: Reflexão sobre o Culto Moderno dos Deuses Fe(i)tiches. Bauru: Edusc, 2002).