Teoria IV

As tensões políticas das teorias antropológicas contemporâneas

2018-2

Jean-François Véran

A construção teórica na antropologia sempre foi tensionada por questões políticas, quer seja de forma explícita, quando a teoria assume uma agenda política (por exemplo, o movimento anti-utilitarista), ou por interpelação e até atropelamento, quando movimentos políticos questionam o lugar de fala do antropólogo (antropologia pós-colonial). Munidos desta hipótese de partida, trata-se aqui de assumir uma posição crítica a neutralidade axiológica, não para lançar um manifesto a favor da politização geral da teoria antropológica, mas para objetivar as questões políticas sob ou subjacentes que tencionam a produção e a recepção do pensamento teórico. Por exemplo, como a teoria disposicional ou pragmática agita as leituras políticas da dominação? Como o movimento altermundialista potencializou uma nova teoria da ecologia cultural? Como a agitação da “sociedade em redes” tensiona as teorias de gênero e raça?

Não se trata de fazer uma sociologia dessas tensões, seus atores, movimentos, discursos, etc. Localizado a nível do debate das ideias, o curso propõe um panorama parcial da teoria antropológica contemporânea à luz dos debates políticos por ela ou através dela mobilizados.

Aula 1- Introdução, apresentação do curso.

Aulas 2 e 3 – Pós-estruturalismo, perspectivismo e a questão política da universalidade

– Harris, M. (2001). The ethnographic basis of particularism. In The rise of anthropological theory: A history of theories of culture. AltaMira Press.

– Kay, P., & Kempton, W. (1984). What is the Sapir‐Whorf hypothesis? American anthropologist, 86(1), 65-79.

– Derrida, J. (1971). A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas. A escritura e a diferença, 2, 229-249.

– Culler, J. (1997). Sobre a desconstrução: teoria e crítica do pós-estruturalismo. Rio de Janeiro: Rosa dos tempos.

– de Castro, E. V. (2004). Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena. O que nos faz pensar, 14(18), 225-254.

– Latour, B. (2009). Perspectivism:‘Type’or ‘bomb’?. Anthropology today, 25(2), 1-2.

Aula 4- A teoria da Ecologia cultural e o debate sobre o aquecimento global

– Viertler, R. B. (1988). Ecologia cultural: uma antropologia da mudança. Ática.

– Netting, R. (1968). Hill farmers of Nigeria: cultural ecology of the Kofyar of the Jos Plateau. Hill farmers of Nigeria: cultural ecology of the Kofyar of the Jos Plateau.

– Morin, E. (1995). KERN, Anne Brigitte. Terra-pátria, 2.

– Latour, B. (2004). Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. Edusc.

Aula 5- Teoria pós-colonial e multilateralismo político

– Mafeje, A. (1971). The ideology of ‘tribalism’. The journal of modern African studies, 9(2), 253-261.

– Mbembé, J. A. (2001). On the postcolony (Vol. 41). Univ of California Press.

– Ballestrin, L. (2013). América Latina e o giro decolonial. Revista brasileira de ciência política, (11), 89-117.

– Ribeiro, Gustavo L., and Arturo Escobar. 2006. World anthropologies: disciplinary transformations in systems of power.

– Véran, J. F. (2011). Old bones, new powers. Current Anthropology, 53(S5), S246-S255.

Aula 6 Antropologia pragmática e modelos de regulação social

– Lahire, B. (2002). Homem plural: os determinantes da ação. Vozes Editora.

– Cefaï, D. (2009). Como nos mobilizamos? A contribuição de uma abordagem pragmatista para a sociologia da ação coletiva. Dilemas-Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, 2(4), 11-48.

– Boltanski, L., & Thévenot, L. (2006). On justification: Economies of worth. Princeton University Press.

– Corrêa, D & Veran, JF, (2016) A “justificação” como modelo político de regulação: reflexão a partir do contexto brasileiro, in F. Vandenberghe e JF Veran, Além do Habitus, 7 Letras

Aula 7- Antropologia, epigenética, ciências cognitivas ou a revisitação do debate natureza / cultura.

– Pálsson, G. (2011). Decode me! Anthropology and personal genomics. Current Anthropology, 53(S5), S185-S195.

– Lahire, B. (2013). Le cerveau disposé. Dans les plis singuliers du social. Individus, institutions, socialisations, 133-152.

– Bloch, M. (1991). Language, anthropology and cognitive science. Man, 183-198.

– De Garay, A. L., Levine, L., & Carter, J. E. L. (1974). Genetic and anthropological studies of Olympic athletes. Academic Press.

– Fausto-Sterling, A. (2002). Dueling dualism. cadernos pagu, (17-18), 9-79.

Aula 8 e 9- Antropologia anti-utilitarista: o dom na modernidade e a ideologia do mercado

– Caillé, A. (1998). Nem holismo nem individualismo metodológicos: Marcel Mauss e o paradigma da dádiva. Revista brasileira de ciências sociais, 13(38), 5-38.

– Godbout, J. T., Caillé, A., & Cabrera, J. P. (1999). O espírito da dádiva.

– Caillé, A, Vandenberghe, F, Véran, JF (2016). Manifesto convivialista, Edição Brasileira. Ana Blume.

Abélès, M. (2003). Nouvelles approches du don dans la Silicon Valley. Revue du MAUSS, (1), 179-197.

Aula 10 – Lugar de fala e “antropologia nativa”

– Narayan, K. (1993). How native is a “native” anthropologist?. American anthropologist, 95(3), 671-686.

– Alcoff, L. (1991). The problem of speaking for others. Cultural critique, (20), 5-32.

– SAhLiNS, M. (2004). A tristeza da doçura, ou a antropologia nativa da cosmologia ocidental. Cultura na prática, 563-619.

Sahlins, M., Bargatzky, T., Bird-David, N., Clammer, J., Hamel, J., Maegawa, K., & Siikala, J. (1996). The sadness of sweetness: The native anthropology of Western cosmology [and comments and reply]. Current Anthropology, 37(3), 395-428.

Aula 11 – As teorias do gênero e a questão do véu islâmico

– Héritier, F. (2012). Masculino feminino: o pensamento da diferença.

– Abu-Lughod, L. (2012). As mulheres muçulmanas precisam realmente de salvação? Reflexões antropológicas sobre o relativismo cultural e seus Outros. Estudos Feministas, 451-470.

– Mahmood, S. (2006). Teoria feminista, agência e sujeito liberatório: algumas reflexões sobre o revivalismo islâmico no Egipto. Etnográfica, 10(1), 121-158.

– Amara, F., & Zappi, S. (2004). Ni putes, ni soumises. Ed. La Découverte.

Aula 12 e 13 – A antropologia política no cenário político brasileiro

– de Oliveira, L. R. C. (2010). A antropologia e seus compromissos ou responsabilidades éticas.

– Kuschnir, K. (2007). Antropologia e política. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 22(64), 163-167.

– Maio, M. C., & Santos, R. V. (2005). Política de cotas raciais, os” olhos da sociedade” e os usos da antropologia: o caso do vestibular da Universidade de Brasília (UnB). Horizontes antropológicos, 11(23), 181-214.

– Moraes Silva, G., & de Souza Leão, L. T. (2012). O paradoxo da mistura. Identidades, desigualdades e percepção de discriminação entre brasileiros pardos. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 27(80).

Aula 14 – Conclusão / debate. A degradação epistemológica da teoria: o antropólogo (ainda) pode falar?

Aula 15 – Discussão dos trabalhos finais