Ementa:

Há mais de meio século, o desmantelamento das concepções canônicas da arte  vem questionando a autonomia da “obra” de arte,  sua aura,  materialidade, durabilidade e autoria; esse processo associa-se a uma artificação veloz que transforma  objetos e ações em arte, impondo a entrada nos museus dos grafites, do hip hop e dos coletivos de arte, entre outras formas criativas. Assim, ao mesmo tempo em que artistas exibem seus trabalhos nas ruas, reclamam de sua exposição em locais de consagração. Tais mudanças ampliaram sobremodo o emaranhado de uma rede de artistas,  que ao substituir objetos por processos, insistem nos gestos de transgressão e  politização de suas manifestações.  À imagem do artista romântico e genial, se opõe agora o artista sensível aos acontecimentos de um mundo conflitado, que não deseja mais isolar-se em seu ateliê para criar uma obra única. As tentativas de explicação para esse acontecimento vão desde o fim da guerra fria e a globalização até a precarização do trabalho e a desestruturação das hierarquias nas esferas da família e do trabalho. Contudo, paralelamente, ao desmantelamento das regras tradicionais,  o fortalecimento do mercado de arte torna-se cada vez mais notável. Neste curso discutiremos alguns aspectos da arte contemporânea. O primeiro deles 1) trata de seu surgimento a partir de movimentos de artistas que reivindicaram a quebra do isolamento da arte e sua inserção social e política mediante práticas ativas que aproximassem a arte da vida e redefinissem o lugar do espectador; o segundo 2) põe em foco a contingência e imaterialidade da arte contemporânea e suas consequências para a definição da autoria na atualidade; o terceiro 3) discute o conceito de artificação e seus efeitos na renovação dos museus e galerias; questiona especialmente o lugar da fotografia  enquanto dispositivo que garante a existência de objetos ou processos artísticos contingentes; o 4)  tematiza o reconhecimento dos outsiders pelo campo artístico; e, finalmente,  o 5) aborda questões étnicas, de gênero e nacionalidade dos artistas cujas obras circulam no mercado internacional e nacional, em  feiras e bienais.  O curso começa no dia 09 de agosto.

 

Programa:

Apresentação do programa (1ª aula)

 

I Parte

. Autonomia e heteronomia: o fim do isolamento do artista e da arte e os estímulos da modernidade. (2ª aula)

 

Simmel,  Georg,  A Moldura em Georg Simmel, Arte e Vida. Ensaios de estética sociológica, Glaucia Villas Bôas e Berthold Oelze (orgs), São Paulo, Hucitec, 2016, p 167-73;

_______________,  Sobre exposições de arte, em Georg Simmel………………p 159-166;

Villas Bôas,  Glaucia,  Como a arte se apresenta? Sobre a atualidade de A Moldura de Georg Simmel (no prelo), 2017.

Bueno, Artur Oliveira, As Economias da vida. Dinheiro e Arte como formas de vida nos escritos de Georg Simmel, Tese de doutorado, USP, 2014, p 115-126.

 

. Diferentes modos de conceber as configurações do campo artístico entre o moderno e o contemporâneo. (3ª , 4ª e 5ª  aulas)

 

Heinich, Natalie, Práticas da Arte Contemporânea: Uma Abordagem pragmática a um novo paradigma artístico em Sociologia &Antropologia, vol. 04 nº 2, 2014, p 373-387.    

 Osório, Luiz Camillo, Genealogias do contemporâneo. Caminhos da arte brasileira, Arte e vida social. Pesquisas recentes no Brasil e na Franca, Alain Quemin e Glaucia Villas Boas (orgs), OpenEdition Press,  2016, p 91-100

Erber. Pedro, Breaching the frame. The Rise of contemporary art in Brazil and Japan, California, California University Press, 2015, p 1-50.

Moulin, Raymonde, O mercado de arte. Mundialização  e novas tecnologias, Porto Alegre, Editora Zouk, 2007, p 1-47.

 

2 Parte

.Contingência  e  imaterialidade.  Quem são os artistas da arte contemporânea? O problema da autoria individual e compartilhada. (6ª, 7ª aulas) 

 

Buskirk, Martha, The Contingent Object of Contemporary Art, Cambridge, Massachusetts, The MIT Press,  2003, p 1-155

Pucu, Izabela, Arte como trabalho (e vice-vesa). Tese de doutorado, EBA/UFRJ, 2017, p 113-199.

Madeira, Angélica, Arte compartilhada. Uma teoria possível em  Arte e vida social. Pesquisas recentes no Brasil e na Franca, Alain Quemin e Glaucia Villas Boas (orgs), OpenEdition Press, 2016, p 361-373.

 

3 Parte

. O conceito de artificação e o lugar da fotografia na arte contemporânea (8ª e 9ª aulas)

 

Shapiro, Roberta, O que  é artificação? em Sociedade e Estado, vol.22, nº 1, 2007, 135-151.

 

Liebaut, Marisa, L’artification du graffiti et ses dispositifs em Heinich, Natalie, Shapiro, Roberta (orgs),  De l’Artification. Enquêtes sur le passage à l’art, Paris, Éditions de l’École des hautes études en sciences sociales, 2012, p 151-169 e 301-306.

 

Buskirk, Martha, The Contingent Object of Contemporary Art, Cambridge, Massachusetts, The MIT Press,  2003, p 212-251 e 279-285.

 

4 parte

À margem e no centro da arte contemporânea: os outsiders (10ª e 11ª aulas)

 

Zolberg, Vera, Outsider Art: from the margins to the center? em Sociologia & Antropologia, vol. 05, nº 02, 2015, p 501-511.

Bowler, Anne E., Asylum art: the social construction of an aesthetic category em Zolberg, Vera, Cherbo, Joni Maya (orgs), Outsider art. Contesting boundaries in contemporary art,  Cambridge, Cambridge University Press, 1997, p 11-36.

Zolberg, Vera, African legacies, American realities: art and artists on the edge em Zolberg, Vera, Cherbo, Joni Maya, (orgs) Outsider Art  ………………….  p 53-70

Heinich, Natalie, Outside Art and insider artists:  gauging public reactions to contemporary public art em Zolberg, Vera, Cherbo, Joni Maya (orgs) Outsider Art  ……………..    p 118-127

 

5 Parte

O mercado de arte,  o perfil dos artistas,  as feiras e os colecionadores (12ª e 13ª aulas)

 

Quemin,  Alain, The Impact of nationality on the contemporary art  market, Sociologia & Antropologia, vol. 05, nº 03, 2015, p 825-849

Stocco, Daniela, As Feiras de Arte Contemporânea no Rio de Janeiro e em São Paulo: entre a exclusividade e a democratização, Um Vermelho não é um vermelho. Estudos sociológicos sobre as artes visuais, Villas Bôas, Glaucia (org)

Rio de Janeiro, 7 Letras, 2016, p 99-124.

Mercier, Cyrill,  Les Collectioneurs d’Art Contemporain.   Analyse sociologique d’un groupe social et de son rôle sur le marché d’art.  Tese de doutorado, Université Sorbonne Nouvelle, Paris 3, 2012.

 

Encerramento (14ª e 15ª aulas)