Um conjunto de livros e artigos acadêmicos produziu uma antropologia da ação humanitária, muitas vezes em uma perspectiva altamente crítica. Fassin (2010) denuncia o que ele chama de “política de compaixão” como a submissão da governança à reação emocional da piedade. Boltanski (2007) mostra como a contemplação do “sofrimento distante” eventualmente se transforma em ação humanitária através da redução da população assistida para as categorias emocionais de “felicidade” e “infelicidade”. Por outro lado, Paul Farmer (2003) constrói uma Epidemiologia da violência, combinando antropologia e epidemiologia para abordar as causas imateriais das doenças. Tópicos específicos, como estudos sobre refugiados (Agier 2008), estão emergindo como campos multidisciplinares onde a antropologia desempenha um papel fundamental. Além disso, as perspectivas pós-coloniais desafiam os conceitos de Humanidade e humanitarismo a partir de um equilíbrio do poder redefinido o próprio campo disciplinar da antropologia (Véran 2012).

Sem descartar a plena necessidade de desconstruir e questionar o conceito de “humano” embutido na prática humanitária, o curso pretende deslocar o debate atual, e propor uma antropologia em contextos humanitários em vez de mais uma antropologia da ação humanitária. O “sofrimento distante” de Boltanski será invertido, revelando o “sofrimento em presença” ao qual os antropólogos de campo estão expostos. Com este deslocamento, trata-se de permitir também a reflexão dentro dos contextos práticos impostos pelas crises e situações de emergência.

A partir de uma experiência de campo do professor de 7 anos junto à organização Médicos Sem fronteiras, o curso terá o objetivo de ir além da antropologia crítica da ação humanitária para abrir um campo de perguntas: como concretamente se estabelece a relação humanitária? Quais são os operadores que a tornam possível? O que sobra do edifício teórico da alteridade confrontado a esses outros em risco emergencial de vida? Como a antropologia concretamente opera nesses contextos, qual é sua contribuição, seus limites? Que definição de “humano” está sendo efetivamente mobilizada? Quais são os aportes e pontos cegos do conceito de cultura para compreender a “relação humanitária”?

O curso alternará análises de textos, estudos de caso e exposição de atores do campo humanitário.

 

Programa das aulas

Aula 1: Introdução

O sofrimento em presença, exposição da problemática geral do curso.

Aula 2 e 3: A reversabilidade da “política da piedade”, debates críticos acerca da crise migratória na Europa e da chegada dos haitianos no Brasil.

– Fassin, Didier, Fassin, Didier. Humanitarian Reason. A moral history of the present, U of Californa Press, 2011. Versão francesa,  La raison humanitaire: une histoire morale du temps présent. Collection Hautes Études. Paris: Gallimard/Seuil. 2010.

– Fassin, Didier: Compassion and Repression: The Moral Economy of Immigration Policies in France, CULTURAL ANTHROPOLOGY, Vol. 20, Issue 3, pp. 362–387.

– PINTO, Sónia Reis – A migração de haitianos para o Brasil e os usos da razão [Em linha]. Lisboa: ISCTE-IUL, 2014. Dissertação de mestrado.

– VERAN, Jean-François; NOAL, Débora da Silva  and  FAINSTAT, Tyler. Nem Refugiados, nem Migrantes: A Chegada dos Haitianos à Cidade de Tabatinga (Amazonas). Dados [online]. 2014, vol.57, n.4, pp.1007-1041.

 

Aula 4 e 5: do sofrimento a distança ao sofrimento em presença

 

– Boltanski, Luc: Distant Suffering: Morality, Media and Politics, Cambridge University Press, 1999

– Minn, P., “Toward an Anthropology of Humanitarianism”, Journal of Humanitarian Assistance, 2007.

– Chouliaraki Lilie : The Spectatorship of Suffering, Sage Publication Intl,  2009

– Agamben, Giorgio, Homo Sacer, o poder soberano e a vida nua, Belo Horizonte. Editora UFMG

– Veran, Jean-François: O sofrimento em presença. 37º Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu,

MG, 2014.

 

Aula 6 e 7: antropologia em situação humanitária (1), as crises migratórias

 

Aula co-ministrada com o professor Mauricio Santoro, Chefe do departamento de Relações Internacionais da UERJ.

 

– Agier, Michel, Refugiados diante da nova ordem mundial, Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 2, 2006.

– AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. Trad. Iraci D. Poleti. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2008. 133 p.

– Médicos sem Fronteiras: Forçados a fugir do Triângulo Norte da America Central: uma crise humanitária negligenciada.

– A experiencia da organização Caritas.

– Panorama das initiativas no contexto brasileiro

 

 

Aulas 8 e 9: antropologia em situação humanitária (2), as crises epidémicas

 

– Farmer Paul: AIDS and Accusation: Haiti and the Geography of Blame. U of California Press, 2006.

– Hewlett, Barry: Ebola, Culture and Politics: The Anthropology of an Emerging Disease (Case Studies on Contemporary Social Issues), Wadsworth Publishing, 2007.

Estudo de caso 1: A invisibilidade da dengue, epidemia e política no Haiti (baseado na pesquisa junto aos Médicos Sem Fronteiras).

Estudo de caso 2: “sexo como sempre: HIV e os ritos sexuais do Luo (Quênia)” (baseado na pesquisa junto aos Médicos Sem Fronteiras).

 

Aulas 10 e 11: antropologia em situação humanitária (3), “outras situações de violência”

 

– Veena Das: Life and Words: Violence and the Descent Into the Ordinary, University of California Press, 2007.

– FARMER, Paul “On Suffering and Structural Violence: A View from Below”, pp. 261-284, in Kleinman, Arthur, Veena Das and Margaret Lock (eds.) Social Suffering. Berkeley, Los Angeles and London: University of California Press, 1997.

– Birgitte Refslund Sørensen, Violence and humanitarian assistance: Reflections on an intricate relationship. Journal of Humanitarian Assistance, 2006.

Estudo de caso 3: “Os slums de Eastlands (Nairobi, Quênia): violência e saúde mental”. (baseado na pesquisa junto aos Médicos Sem Fronteiras).

 

Aulas 12 e 13: antropologia em situação humanitária (4), a violência sexual

 

– Maria Filomena Gregori, LIMITES DA SEXUALIDADE: VIOLÊNCIA, GÊNERO E EROTISMO, Capa > v. 51, n. 2 (2008).

– Suzanne Leclerc-Madlala: Transactional Sex and the Pursuit of Modernity, Journal Social Dynamics, A journal of African studies, Volume 29, 2003

– Fernandes, Camila: as novinhas e a sexualidade ostentação: um problema de corpos, gênero e estado (apresentação pela autora)

Estudo de casos 4: da violência sexual a sexualidade em contextos violentos (India, Africa do Sul, Guatemala, baseado nas pesquisas junto aos Médicos Sem Fronteiras).

 

Aula 14: Os Médicos Sem Fronteiras, as vidas nuas e o não deixar morrer

 

– Redfield, Peter. 2005. Doctors, Borders and Life in Crisis. Cultural Anthropology 20(3): 328-361.

– Projeção do filme (com subtítulos): “Living in emergency”

Debate com Renata Reis, doutora em direito e responsável pelas Relações institucionais da MSF Brasil.

 

Aula 15: Discussão das propostas de trabalhos finais e encerramento