O curso tem como objetivo exercitar a reflexão em torno das formas pelas quais as referências da nação e da modernidade são vividas em diferentes contextos históricos. Para tanto, serve-se de interrogações que partem basicamente de dois campos de discussão. De um lado, aquelas suscitadas pelo paradigma liberal – suas concepções de direitos, sociedade e liberdade – e os desafios que lhe estão colocados. De outro, o campo difusamente circunscrito pelos estudos pós-coloniais, constituídos em torno de debates sobre as condições históricas que definem as hegemonias geopolíticas e simbólicas atuais em relação às antigas ordens coloniais e sobre os discursos possíveis a partir de espaços (ex?)colonizados.
Tais discussões envolvem um desafio às ciências sociais, provocadas a repensarem seus próprios paradigmas e a relativizar as fronteiras disciplinares que as tem organizado epistêmica e institucionalmente. Para a antropologia, trata-se de refletir sobre a dimensão da alteridade considerando suas definições históricas concretas e inserir os debates sobre “antropologias periféricas” em um contexto mais amplo de questões. Para a ciência política, trata-se de discutir, reflexivamente, o alcance e os limites de princípios fundamentais que pautam, desde suas origens, a imagem que o Ocidente construiu de si mesmo.
A apresentação do paradigma liberal, por meio de algumas referências clássicas, toma a primeira parte do curso. Trata-se, nesse caso, de um recorte plausível e, julgamos, defensável para a entrada no que se convencionou chamar as bases da modernidade. Ainda nesse primeiro momento do curso, apresentaremos algumas das suas atualizações, que partem do pressuposto de que o paradigma liberal permanece sólido e seus desdobramentos suficientemente vigorosos do ponto de vista normativo. Seguiremos, no segundo módulo, acompanhando algumas das interpelações impostas a esse paradigma, formuladas, sobretudo, a partir dos debates em torno da religião. Nesse momento do curso, a questão da alteridade aparece como dimensão problemática e problematizante do alcance de princípios como tolerância, cosmopolitismo e pluralismo, tão caros à tradição liberal. O módulo seguinte aprofundará a perspectiva assumida no módulo anterior, introduzindo algumas discussões do que se convencionou chamar de estudos pós-coloniais. Aqui, o eixo de nossa abordagem será o tema da nação e seus corolários mais diretos (nacionalismos, modernidade, pertencimento, etc.). A Índia – país de origem de alguns dos principais teóricos dos estudos pós-coloniais – surgirá como caso privilegiado. Finalmente, o último módulo será dedicado à apresentação das relações difusas e confusas que a tradição intelectual da América Ibérica guardou, no processo de sua constituição, com os temas abordados nos módulos anteriores.

Bibliografia (proposta preliminar)

Módulo 1: O paradigma liberal e o preceito pluralista
LOCKE, John. Ensaio sobre a Tolerância; in Col. Pensadores. Abril Cultural.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta o que é o iluminismo; in Ensaios escolhidos. Petrópolis, Ed. Vozes.
VOLTAIRE. Tratado sobre a Tolerância. São Paulo, Martins Fontes.
DWORKIN, Ronald. Uma Questão de Princípio. Parte 3; Cap. 8, 9, 10. São Paulo, Ed. Martins Fontes. [2000(1985)].
RAWLS, John. O Liberalismo Político. Conferência 1. São Paulo, Ática Editora, [2000 (1993)].

Módulo 2: Desafios ao liberalismo
2.1. Alteridade e diferença
KYMLICKA, Will. Politics in the Vernacular: Nationalism, Multiculturalism, and Citizenship. Oxford University Press, 2001.
KYMLICKA, Will. Liberalism, community and culture. Oxford University Press, 1989, Introduction, cap. 2 e 3.
TAYLOR, Charles. Multiculturalism and “the politics of recognition” an essay. Princeton: Princeton University Press, 1992.
WALZER, Michael. Sobre a tolerância. São Paulo, Martins Fontes, 2000.

2.2. A questão religiosa
AUDI, Robert. “The State, the Church, and the citizen”. In: P. Weithman (org.). Religion and contemporary liberalism. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1997, p.38-75.
MACEDO, Stephen. “Transformative constitutionalism and the case of religion. Defending the moderate hegemony of liberalism”. Political Theory, 26 (1), 1998: 56-80.
BADER, Veit. “Religious pluralism. Secularism or priority for democracy?”. Political Theory, 27 (5), 1999: 597-633.
WOLTERSTORFF, Nicholas. “Why we should reject what liberalism tell us about speaking and acting in public for religious reasons”. In: P. Weithman (org.). Religion and contemporary liberalism. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1997, p.162-181.
TAYLOR, Charles. “Modes of secularism”. In: R. Bhargava (org.). Secularism and its Critics. Nova Deli: Oxford University Press, 1998, p. 31-53.

2.3. Tolerância (e religião) em casos contemporâneos

SCANLON, T. M. “The dificulty of tolerance”. In: R. Bhargava (org.). Secularism and its Critics. Nova Deli: Oxford University Press, 1998, p. 54-70.
SCOTT, David. “Toleration and historical traditions of difference” [sobre Sri Lanka]. In: Chatterjee e Jeganathan. Community, Gender and Violence (Subaltern Studies XI). Nova Iorque: Columbia University Press, 2000, p. 283-304.
GALEOTTI, Anna Elisabetta. “Citizenship and equality: the place for toleration”. Political Theory, 21 (4), 1993, p. 585-605 (véu na França)
MORUZZI, Norma. “A problem with headscarves. Contemporary complexities of political and social identity”. Political Theory, 22 (4), 1994, p. 653-672.

Módulo 3: Estudos pós-coloniais e o problema da nação

3.1. Pós-colonialismo (geral)
APIAH, Kwame. Na casa do meu pai. Rio de Janeiro : Contraponto, 1997.
DIRLIK, A. “The postcolonial aura: Third World criticism in the age of global capitalism”. Critical Inquiry, 20, p. 328-56.
GANDHI, Leela. “After colonialism”. In: Robertson e White (orgs.). Globalization: critical concepts in sociology. Vol 2. Abingdon: Routledge, 2003, p. 350-367.
GOLDBERG, David e QUAYSON, Ato (orgs.). Relocating Postcolonialism. Oxford: Blackwell, 2002.
MOORE-GILBERT, STANTON & MALEY (orgs.). Postcolonial Criticism. Londres: Longman, 1997.
PRAKASH, Gyan. “Subaltern studies as postcolonial criticism”. The American Historical Review, 99 (5), 1994: 1475-90.

3.2. Historiografia pós-colonial a partir do caso indiano

CHAKRABARTY, Dipesh. “Subaltern histories and post-enlightenment rationalism”. In: Habitions of Modernity. Chicago: The University of Chicago Press, 2002, p. 20-37.
CHAKRABARTY, Dipesh. Provincializing Europe. Postcolonial thought and historical difference. Princeton: Princeton University Press, 2000. Caps. 1, 4, Introdução e Epílogo.
CHATTERJEE, Partha. “Nossa Modernidade”. In: Colonialismo, Modernidade e Política. Salvador: EdUFBA e CEAO, 2004.
CHATTERJEE, Partha. “The nation and its pasts”. The Nation and its Fragments. Princeton: Princeton University Press, 1993.
CHATURVEDI, Vinayak (org.). Mapping Subaltern Studies and the Postcolonial. Londres: Verso, 2000.
GUHA, Ranajit. “An Indian Historiography of India: hegemonic implications of a Nineteenth-Century Agenda” [1988]. In: Dominance without hegemony. Cambridge: Harvard University Press, 1997, p. 152-212.
PRAKASH, Gyan. “Writing post-orientalist histories of the Third World: Indian historiography is good to think”. In: N. Dirks (org.). Colonialism and Culture. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1992, p. 353-388.
VAN der VEER, Peter. Imperial Encounters. Religion and Modernity in India and Britain. Princeton: Princeton University Press, 2001.

Módulo 4: a América Ibérica e seus dilemas 
BEVERLEY, John. Subalternity and Representation. Arguments in Cultural Theory. Durham: Duke University Press, 1999. Introdução, caps. 1 e 2.
GROSFOGUEL, Ramón. “Colonial Difference, geopolitics of knowledge, and global coloniality in the modern / colonial capitalist world-system”. In: Review, 25 (3), 2002: 203-24.
MERQUIOR, José Guilherme. “O outro Ocidente”. Presença, 15 (1990): 67-91.
MIGNOLO, Walter. “The Zapatista’s theoretical revolution: its historical, ethical, and political consequences”. In: Review, 25 (3), 2002: 245-75.
MIGNOLO, Walter. Histórias Locais / Projetos Globais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.
MORSE, Richard. O Espelho de Próspero. São Paulo, Cia. das Letras.
RAMA, Angel. A Cidade das Letras. São Paulo, Ed. Brasiliense.
SANTIAGO, Silviano. O Cosmopolitismo do Pobre. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.
VIANNA, Luís Werneck. “Americanistas e Iberistas: a polêmica de Oliveira Vianna com Tavares Bastos”. Dados, vol. 34, nº. 2, 1991.