Nos últimos anos, um número crescente de cientistas sociais tem manifestado interesse pela análise e a utilização de imagens em suas pesquisas. Retratos e paisagens são dois temas que, com abordagem diversificada, destacam-se na bibliografia recentemente publicada.

Quanto a retratos, há autores que lastreiam em diferentes registros visuais ( pinturas a óleo, aquarelas, desenhos, fotografias,etc ) seus estudos sobre processos de formação de identidades simbólicas de grupos sociais. Outros, analisam retratos fotográficos que, paradoxalmente, constituíram os principais vetores de representação em amplos projetos visando descrever sociedades. Há estudos sobre retratos de famílias voltados para o que revelam acerca da continuidade e a integração de grupos domésticos, assim como para o significado da composição uniforme destas imagens. A análise de retratos de escravos brasileiros ensina o que o olhar pode ver quando instruído por conhecimentos históricos. Questões sobre a autenticidade de representações sociais e sobre o rendimento da análise de casos empíricos limitados são formuladas através do estudo de auto-retratos de agricultoras francesas.

Quanto a representações visuais de paisagens e seus significados, duas vertentes podem ser assinaladas: a historicização da noção de paisagem e suas repercussões sobre estudos iconográficos; a associação entre preocupações ambientais e a transformação de espaços físicos em representações visuais. Certos autores consideram que paisagens são ab initio uma questão de olhar e de representação. Imagens visuais seriam indispensáveis à produção, à circulação e à conservação de paisagens míticas ou identitárias. Aproximações mais prudentes historicizam a noção de paisagem no Ocidente, rastreando seus diferentes significados a partir do século XVI até os dias atuais. Além de seu interesse intrínseco, estas análises contextualizam a iconografia produzida por europeus sobre o Brasil. Até recentemente, esta iconografia era tratada como « documento », mas alguns autores vêm deslocando o eixo de interesse da « documentação » para a presença de convenções da arte européia nas representações visuais de paisagens brasileiras. A pergunta feita a estas representações não é mais apenas « o que se vê » ?, mas « quem »e «como viu »? E, no quadro da recusa da interpretação « documentarista », coloca-se ainda outra questão, a do desacerto entre sistemas formais preestabelecidos e representações da «realidade brasileira». Quanto a representações visuais de paisagens inseridas no contexto de preocupações ambientais, há autores interessados por percepções paisagísticas entre habitantes de regiões onde ocorrem intervenções de proteção ao meio-ambiente e por projetos de registros fotográficos retrospectivos e prospectivos de paisagens.

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