Professoras: Aparecida F. Moraes e Felícia Picanço

Quinta-feira: 10h -13h

Programa em PDF

Ementa

O objetivo principal do curso é discutir como as pesquisas que têm como alvo o campo analítico do gênero e sua articulação com outros marcadores sociais da diferença – tais como idade/geração, classe, raça/etnia, territorialidade, sexualidade – na produção e reprodução de sujeitos, identidades, desigualdades e formas de disputas-, operacionalizam conceitos e noções nas suas práticas de pesquisa.

Os marcadores sociais da diferença são construídos numa composição de signos e fronteiras, que produzem definições, sentidos, parâmetros para ações e valoração do mundo, coerentes para quem compartilha seus significados. Mas, durante o fluxo da vida cotidiana esta construção não está necessariamente exposta à primeira vista, nem se coloca como categorias fixas.

Desse modo, na pesquisa social duas etapas iniciais são demandadas. Na primeira, é necessário reconhecer a multiplicidade de diferenciações que permeiam as relações e interações sociais e estabelecem fronteiras entre grupos e pessoas, orientam sentidos de ação, discursos e podem os hierarquizar. Na segunda, é necessário centrar na observação das interações cotidianas, percepções e práticas dos sujeitos, e nos dados qualitativos e quantitativos que a partir dela são construídos, como tarefa decisiva para a objetivação das categorias da diferença e suas hierarquizações (Feltran, 2017; Henning, 2015; Pisticelli, 2008).Se na primeira etapa as perspectivas teóricas são o ponto de partida, na segunda a operacionalização dos conceitos e noções é o mecanismo através do qual se produz a empiria. Daí que o curso é programado levando em consideração estas duas etapas.

Programa

O curso é recomendado a discentes cujas questões de pesquisa se desenvolvam em torno deste campo analítico e está dividido em duas partes. A primeira discutirá a maneira como os estudos de gênero e as teorias feministas têm se dedicado a: (i) analisar as complexas dimensões da produção e reprodução das diferenças e desigualdades sociais no mundo contemporâneo, suas interseções, cruzamentos e combinações; e (ii) interpretar constrangimentos, opressões, discriminações e desigualdades interseccionais de gênero ao analisar identidades, subjetividade, experiências, esfera pública/privada, mundo do trabalho, políticas públicas, dentre outros temas. Interessa destacar a heterogeneidade das perspectivas epistemológicas e teóricas mobilizadas pelas autoras e autores.

A segunda parte tem como objetivo discutir a cada semana um plano de trabalho, projeto e/ou resultado (capítulos de dissertações ou tese em andamento) das pesquisas discentes para contribuir com as etapas seguintes. Para isto, na semana anterior a apresentação, o aluno deve encaminhar juntamente com seu trabalho, projeto e/ou resultado, uma referência bibliográfica que considera central para seu trabalho. No dia da apresentação, todos deverão ter lido os dois materiais para produzir uma discussão em cima dos conceitos, sua operacionalização e resultados analíticos.

Avaliação

A avaliação consistirá na participação dos/as discentes em todas as atividades propostas e entrega do manuscrito em duas fases: na primeira quando será discutida em sala com os demais colegas e uma versão mais que deve conter os avanços produzidos ao longo do curso com a incorporação de novas referências bibliográficas e discussões.

Observação: A aprovação na disciplina está condicionada à presença em pelo menos 75% das aulas.

Bibliografia

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(indicado em Ferguson – ver se consegue texto)

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Bibliografia complementar

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