Sobre Relações Pessoais

Ementa

Com grande freqüência, tem sido creditado às “relações pessoais” poder de resolver impasses explicativos de modelos usados pela Antropologia e outras Ciências Sociais. A proposta do curso é questionar esse “poder”, explorando o próprio uso da noção, e de outras correlatas, em trabalhos nossos e dos autores com quem temos dialogado em nossas pesquisas.
Mais especificamente, temos nos defrontado com categorias e práticas (tais como ajuda, favor, pleito, assistência, fofoca, brincadeira, intriga, devoção, aposta) que delimitam modos de estabelecer relações em determinados contextos, e que tendem a ser analisadas como de alguma maneira pertinentes às “relações pessoais”. Parece-nos importante refletir criticamente sobre recortes que percebem determinadas relações, por oposição a uma suposta “impessoalidade”, como residuais, intersticiais ou anacrônicas frente ao universo institucional ou às grandes divisões das sociedades contemporâneas, ou como peculiaridades das relações “locais” em distinção ao “nacional” ou ao “global”, ou ainda como particularidades culturalmente determinadas de algumas sociedades. O nosso esforço será no sentido de problematizar certos pressupostos inerentes a esses modos de pensar, e identificar instrumentos conceituais para desdobrar e complexificar as análises sobre categorias e práticas que são centrais nos universos sociais que estamos estudando.

1ª. Sessão. Apresentação do curso

2ª. Sessão. Introdução: relações pessoais, sociedade, indivíduo.

DaMatta, Roberto (1991) “Cidadania: A questão da cidadania num universo relacional”. Em A Casa e a Rua. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, pp 71 – 102.

Wolf, Eric (2003) Parentesco, amizade e relações patrono-cliente em sociedades complexas. Em Wolf, E. Antropologia e poder (org. Bela Feldman-Bianco e Gustavo Lins Ribeiro). Brasília/São Paulo, Editora da UnB, Editora da Unicamp, Imprensa Oficial. Pp. 93-114

Dumont, Louis (1970) “The individual as an impediment to sociological comparison and Indian history”. Em Religion, Politics and History in India. Paris: Mouton, pp 133-150

Simmel, G. (1983) Simmel – Sociologia (Evaristo de Moraes Filho, org.). São Paulo: Ática. “O problema da sociologia”, pp 59 a 78; “A determinação quantitativa dos grupos sociais”, pp 90-106; “Superordenação e subordinação”, pp 107 – 114; “O efeito da subordinação sob o princípio das relações entre superiores e subordinados”, pp 115-121; “Sociabilidade – um exemplo de sociologia pura ou formal”, pp 165 – 181.

Cooley, Charles (1965) “Primary Groups”. Em Parsons, T.; Shils, E.; Naegele, K.; Pitts, J. (eds) Theories of society. Foundations of modern sociological theory. New York: The Free Press, pp. 315-318

Bibliografia complementar

Dunn, Elizabeth. 2005. Standards and person-making in East Central Europe. Em Ong, A.; Collier, S. (eds) Global Assemblages: Technology, Politics and Ethics as Anthropological Problems. Oxford: Blackwell Publishing, pp 173-193

3ª. sessão: ajuda/favor

Arensberg and S.T. Kimball The small farm family in Rural Ireland in : Anderson Michael (ed.) Sociology of the family. England: Penguin Books, pag. 19-31

Heredia , Beatriz M. A. de 1979 : A morada da Vida. Rio de Janeiro : Paz e Terra . ´pp. 77-105 e 105-120

Mauss, Marcel. 1965. “Reciprocity”. In : Parsons, Talcott; Shils, Edward; Naegele, Kaspar D.; Pitts, Jesse R. (eds.). Theories of Society: Foundations of Modern Sociological Theory. New York : The Free Press, pp. 168-173

Bourdieu, Pierre, 1996: “A Economia dos bens simbólicos”. In : Razões Práticas. Sobre a teoria da ação. Campinas, Papirus editora, pp 157 – 197

Gatti, Luis Maria e Echenique, Vera, Maria Moura 1974: Relaciones Sociales em uma Feria. Revista del Instituto de Antropologia, UNCordoba, nº V. pp. 59-66

Bibliografia complementar

Durkheim, Emile, 1965: On Mechanical and Organic Solidarity. In : PARSONS, Talcott; SHILS, Edward; NAEGELE, Kaspar D.; PITTS, Jesse R. (eds.). Theories of Society: Foundations of Modern Sociological Theory. New York : The Free Press. pp.208-213

Testart, Alain, 1998: Uncertainties of the obligation to reciprocate: A critique of Mauss. In: JAMES, Wndy and ALLEN, N.J : Marcel Mauss. A centenary Tribute. Methodology and History in Anthropology. Volume 1. New York/ Oxford : Berghahn Books pp.97-110

4ª. sessão: favor/pleito/assistência

Weber, Max. 1944. “Dominación patriarcal y patrimonial”. In: Economia y Sociedad. Mexico: Fondo de Cultura Económica. pp.753-809. (Existe tradução para o português pela Editora da UNB).

Bourdieu, Pierre. 1980. “Les modes de domination”. Le sens pratique. Paris: Editions de Minuit.

Palmeira, Moacir. 1976. “Casa e trabalho: nota sobre as relações sociais na plantation tradicional”. In: Congres International des Américanistes, 42. Paris, 2-9 set.

Heredia, Beatriz M. A. de. 1996 : Política, Familia e Comunidade”. In: Palmeira M. e Goldman (org) . Antropologia, voto e representação política. Rio de Janeiro: Contracapa, pp. 57-72

Bezerra, Marcos O. 1999. Em nome das “bases”. Política, favor e dependência pessoal. RJ:Relume-Dumará/NUAP. (capítulos V, VI e VIII).

Garrigou. Alan. 1998. “Clientélisme et vote sous la III° République”. In: Briquet, J-L. et Sawicki, F. Le clientélisme politique dans les sociétes contemporaines. Paris: PUF.

Bibliografia Complementar:

Elias, Norbert. 1987. “O rei no seio da sociedade de corte”. A sociedade de corte. Lisboa: Editorial Estampa.

Leach, E. 1989. “Dívidas, relações, poder”. In: A diversidade da antropologia. Lisboa: Edições 70.

Scott, James. 1977. “Patronage or exploitation?”. In: Gellner, E. and Waterbury (ed.). Patrons and clients in Mediterranean societies. London: Duckworth.

Weber, Max. 1944. “Sociología de la Dominación”. In: Economia y Sociedad. Mexico: Fondo de Cultura Económica

5ª. sessão: fofoca

Comerford, John. 2003. Como uma Família: sociabilidade, territórios de parentesco e sindicalismo rural. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. Páginas 25; 30-34; 60-63; 81-85; 130-132.

Gluckman, M. 1963. Gossip and scandal. Current anthropology 4, 307-16
Paine, R. 1967. What is gossip about? An alternative hypothesis. Man, 2(2) 278-285
Haviland, J. B. 1977. Gossip, Reputation and Knowledge in Zinacantan. Chicago: The University of Chicago Press. Capítulo 1, “A plea for gossip”, e 2 “The ethnographic context” 1-27.

Elias, N. 2000. Os Estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Capítulo 7, “Observações sobre a fofoca”, 121- 133

Gilmore, D. 1985 Aggression and community. Paradoxes of Andalusian Culture. New Haven and London, Yale University Press. Capítulo 4, “Gossip”, 53- 76

Bibliografia Complementar

Simmel, G. “Secrecy”. In: The Sociology of Georg Simmel, Kurt Wolff (ed). New York, The Free Press. 330- 344

Gluckman, M. 1968. “Psychological, sociological and anthropological explanations of witchcraft and gossip.” Man 3, 20-34
Goffman, E. 1967. Interaction Ritual. Essays on face-to-face behavior. Middlesex, Penguin Books. Capítulo 1, “On Face-Work: an analysis of ritual elements in social interaction”, pp 5-45

Abrahams, R. 1970. “A performance-centered approach to gossip”. Man 5(2) 290-301
Brenneis, D. 1984. “Grog and gossip in Bhatgaon: style and substance in Fiji Indian conversation”. American Ethnologist 11: 487-506

Marques, A. C. 2002. Intrigas e questões. Vingança de família e tramas sociais no sertão de Pernambuco. Rio de Janeiro: Relume Dumará. (trechos a definir)

6ª. Sessão: brincadeira/provocação

Radcliffe-Brown, A.R. 1973. “Os parentescos por brincadeira”; “Nota adicional sobre os parentescos pro brincadeira”. Em Estrutura e função na sociedade primitiva. Petrópolis, Vozes, pp. 115 -146

Bateson, G .2000. Steps to and ecology of mind. Chicago, The University of Chicago Press. . “Metalogue: Why do Frenchmen?” “Metalogue: about games and being serious”; “A theory of play and fantasy” págs 9-20 e 177 – 193

Comerford, J. 1999. Fazendo a luta. Sociabilidade, falas e rituais na construção de organizações camponesas. Rio de Janeiro, Relume-Dumará. Capítulo 3, “Brincando: estudo sobre uma forma de construção social da amizade e suas reapropriações”, págs 81-92

Comerford, J. 2003. Como uma Família: sociabilidade, territórios de parentesco e sindicalismo rural. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. Páginas 85-112 (“Formas de sociabilidade agonística: a provocação e a construção do respeito”)

Freitas, G. J. 2003. Ecos da Violência. Narrativas e relações de poder no nordeste canavieiro. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. Capítulo 5, “O lugar das metáforas: deu bode e deu cachorro”, págs 123-145
Bibliografia Complementar

Huizinga, J. 1980. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva. Capítulo 3, O jogo e a competição como funções culturais, 53-86

Goffman, E.1975. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis, Vozes. Capítulo 2, “Equipes”

Goffman, E. 1975. Frame analysis: an essay on the organization of experience. Cambridge: Harvard University Press. “Keys and Keyings”, págs 40-82

Brenneis, D. 1988. Talk and transformation. Man 22, 499-510

Herzfeld, M. 1985. The poetics of manhood. Contest and identity in a Cretan mountain village. Princeton, Princeton University Press.

7a. Sessão: intriga/questão

Marques, Ana Claudia 2003 “Política e Questão de Família”. Revista de Antropologia . São Paulo, v.45, n.2, pp. 417-442.

Lewin, Linda. 1979. “Some historical implications of kinship organization for family-based politics in the Brazilian Northeast”. Comparative Studies in Society and History, vol. 21, no 2, April, pp. 262-292.

Gellner, Ernest. 1981. Muslim Society. Cambridge, New York, Melbourne: Cambridge University Press. Cap. 12. 221-230.

Black-Michaud, Jacob. 1975. Cohesive Force. Feud in the Mediterranean and the Middle East. New York: St. Martin’s Press. Cap.1, pp 1-32

Bibliografia complementar

Peters, Emrys. 1960. “The proliferation of segments in the lineage of Bedouin of Cyrenaica”. The Bobs Merrill Reprint Series in Social Sciences. Vol. 90, part I, Jan-Jun.29-53.

Black-Michaud, Jacob. 1975. “Foreword”. . Cohesive Force. Feud in the Mediterranean and the Middle East. New York: St. Martin’s Press. Pp. ix -xxvii.

Evans-Pritchard, Edward. 1978 [1940]. Os Nuer. São Paulo: Perspectiva. Caps 4 e 5. pp151-256.

Fortes, Meyer & Evans-Pritchard, E. E.1981. “Introdução” Sistemas Políticos Africanos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Pp. 25-62.

Marques, Ana Claudia. 2002 Intrigas e questões. Tramas sociais e vingança de família e tramas sociais no sertão de Pernambuco. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Cap. 2. pp119-168.

8ª. Sessão: aposta

Palmeira, Moacir. 2006. Apostas eleitorais. ms
Weber, Max. 1965. Essai sur quelques catégories de la sociologie comprehénsive. Em Essais sur la théorie de la science. Paris, Plon, pp 325 – 398

Douglas, Mary. 1992. Risk and Blame. Essays in cultural theory. New York: Routledge (páginas a indicar)

Caillois, Roger. 1967. “Jeux des adultes. Définitions”. Em Jeux et Sports, Roger Caillois (org). Paris: nrf/ Encyclopedie de La Pléiade. Pp 150-180

9a. sessão: devoção

Foster, George M.1967. “The dyadic contract: a model for the social structure of a Mexican Village” In: Potter, Jack & al. Peasant Society: a reader. Boston: Little Brown & Co., , p.: 213-230.

Brown, Peter. 1982. “The invisible companion” In: _____. The cult of the saints. Chicago: The Chicago University Press, , p. 50-68.

Menezes, Renata de Castro. 2004. A Dinâmica do Sagrado. Rio de Janeiro: Relume Dumará, pp. 200- 249 (parte do cap. 8, cap. 9 e 10).

Benveniste, Emile. 1969. Le vocabulaire des institutions Indo-Européennes. Paris: Minuit,. V1. verbetes: “don et échange” (p.65-79); “créance et croyance” (p. 171-179), “gratuité et reconnaissance” (p. 199-202).VII : “le vœu” (p.233-243)

Simmel, Georg. 1978. “Exchange as a form of life” In:_____. The Philosophy of Money. London, Routledge & Kegan Paul, , p. 82-90.

Bibliografia complementar

Geary, Patrick. 1990 “Sacred commodities: the circulation of medieval relics” IN: APPADURAI, Arjun. The social life of things. Commodities in cultural perspective. Cambridge: Cambridge University Press, p. 169-191.

Hubert, Henry, Mauss, Marcel. 2005. Sobre o sacrifício. São Paulo: CosacNaify.

Mauss, Marcel “Essai sur le don”. 1985. In:____. Sociologie et Anthropologie. Paris: PUF, p.145-279.

10ª. Sessão: pessoal, local, nacional

Palmeira, Moacir. 2006. Poder local. Ms.

Bailey, F. G. 1971. Gifts and poison. The politics of reputation. Oxford: Basil Blackwell, pp 1-25

Holtzman, Jon. 2004. The local in the local: models of time and space in Samburu district, Northern Kenya. Current Anthropology, 45/1, February, pp 61-84.

11ª. A 14ª. Sessões: discussão de monografias

(a lista de monografias a serem discutidas será definida oportunamente)

15ª. Sessão: Discussões finais e encerramento