Ementa

Expressiva, comunicacional e performativa, dotada de múltiplos usos e significados, a música é um campo fértil para investigação antropológica de um conjunto de temas e questões – experiências, memórias e identidades, transmissão de valores, habitus e conhecimentos, dramatização e explicitação de conflitos, tensões e violências, entre outros. Este curso pretende explorar o potencial analítico e etnográfico da música (e mais amplamente do som musical) na compreensão de processos sociais e simbólicos nos mais diferentes contextos, reunindo um conjunto de textos e reflexões de etnomusicólogos, antropólogos e sociólogos. Para problematizar as relações entre música e vida social, as discussões do curso serão organizadas através de três eixos: 1) mapeamento das configurações que proporcionaram a emergência de uma etnomusicologia ou antropologia da música 2) acompanhamento de determinados debates conceituais inerentes ao campo de estudo antropológico da música;  3) incursão em diferentes contextos etnográficos que dizem respeito a distintas práticas e valores em torno do fazer e conceber a música bem como às relações entre música e outras formas expressivas.

 

Para alcançarmos esses objetivos, o curso está estruturado em dois módulos: no primeiro, partindo do exame de autores e perspectivas teórico-metodológicas relevantes para a consolidação da etnomusicologia ou antropologia da música, pretende-se inicialmente mapear a constituição desse campo disciplinar (e seu dilema fundador de estar entre as artes e as humanidades) e em seguida problematizar as relações entre música e experiência, música e cultura, música e estrutura social, mudança musical, colecionismo e o papel dos arquivos sonoros; no segundo módulo, propomos uma incursão na bibliografia selecionada com foco em alguns debates contemporâneos que pensam a música como um bom lugar para se perceber (e se discutir) questões relativas às apropriações, fusões, hibridismos, performances, rituais e religiosidades, paisagem sonora, globalização, gosto e mediação.

 

Do ponto de vista etnográfico, o curso fará incursões em um vasto espectro de formas, tradições e contextos de práticas musicais – da musicalidade dos tambores Kaluli da Nova Guiné aos cantos das folias de santos reis; das formas de arte verbal dos Kisdeje do Brasil central ao Funk carioca; das polirritmias dos Venda da África do Sul ao Rap paulistano; do Xangô Pernambucano à World Music; do Kuduro angolano ao Mangue Beat.        

 

9/08. Sessão 1.  Apresentação

 

16/08. Sessão 2. Etnomusicologia e Antropologia Sonora

 

BASTOS, Rafael José de Menezes. 1995. “Esboço de uma teoria da música: para além de uma antropologia sem música e de uma musicologia sem homem“. Anuário Antropológico 93, pp. 9-73.

 

OLIVEIRA PINTO, Tiago de. 2001. “Som e música. Questões de uma Antropologia Sonora”. Revista de Antropologia. v.44 n.1.

 

Leitura complementar:

 

MEYERS, Helen. 1992. “Ethnomusicology”. Em: MEYERS, H (ed) Ethnomusicoiogy: An Introduction. W.W. Norton & Company: New York. pp 3-18.

 

NETLL, Bruno. 1995. “The Seminal Eighties: A North American Perspective of the Beginnings of musicology and Ethnomusicology”. Revista Transcultural de Música / Transcultural Music Review, n.1.

 

TRAVASSOS, Elizabeth. 2003. “Esboço de balanço da etnomusicologia no Brasil”. Revista Opus, n. 9, pp 73–86.

 

23/08. Sessão 3. John Blacking: música, cultura e experiência

 

BLACKING, John. 2007 . “Música, cultura e experiência”. Cadernos de Campo, v. 16, pp. 201-218.

 

______________ . 1973. How Musical is Man?.  London, Faber & Faber. (Caps 2 “Music in society and culture”, pp 32-53 e cap 3 “Culture and society in music”, pp 54-88) (Há tradução do cap 2).

 

Leitura complementar:

 

TRAVASSOS, Elizabeth. 2007. “John Blacking ou uma humanidade sonora e saudavelmente organizada”. Cadernos de Campo, n. 16, pp. 191-200.

 

REILY, Suzel. 2006. “John Blacking in the Twenty-First Century: an introduction”. Em: REILY, S. (ed.).The musical human. Rethinking John Blacking’s Ethnomusicology in the Twenty-First Century. Hampshire, Ashgate.

 

 

30/08. Sessão 4. Anthony Seeger: música, etnografia e arquivos

 

Professor convidado: Felipe Barros

 

SEEGER, Anthony. 2008 (1992). “Etnografia da música”. Cadernos de pesquisa, v. 17, p. 237-59.

 

_________________. 1977. “Por que os índios Suya Cantam para suas irmãs?”. In: Velho, G (org.) Arte e Sociedade: ensaios de sociologia da arte. Zahar editores, RJ.

 

___________________ 1986. “The Role of Sound Archives in Ethnomusicology Today”.  Ethnomusicology 30:261‑276.

Leitura complementar:

 

COHN, Clarice; VIEIRA, José Glebson; LIMA, Leandro Mahalem de; SZTUTMAN, Renato e HIKIJI, Rose. 2007. “Por que canta Anthony Seeger?”. Revista de Antropologia, São Paulo, USP, V. 50 Nº 1 pp 389-418.

 

SEEGER, Anthony. 2015. Por que cantam os Kisêdjê: uma antropologia musical de um povo amazônico. São Paulo: Cosac Naify, (Prefácio, caps 4 e 7)

 

 

6/09. Sessão 5.  Mudança musical em Debate

 

Professor convidado: Felipe Barros

 

BLACKING, John. 1979 “Some Problems of Theory and Method in the Study of Musical Change”, Yearbook of the International Folk Music Council, vol. 9: 1-26.

 

NETTL, Bruno. 2006. “O estudo comparativo da mudança musical: Estudos de caso de quatro culturas”. Revista ANTHROPOLÓGICAS, ano 10, volume 17(1): 11-34

 

_________________________ 1996. “Relating the present to the past: thoughts on the study of musical change and culture change in ethnomusicology”. Music & Anthropology n. 1.

 

 

13/09. Sessão 6. Steven Feld: da antropologia do som para a antropologia no som

 

FELD, Steven. 1989. Sound and Sentiment: birds, weeping, poetics, and song in Kaluli expression, 2nd ed. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. (Ler Introdução à 3a edição, Cap. 6 e Postcript).

 

___________________ 1984 “Sound Structure as Social Structure”. Ethnomusicology 28(3): 383-409 (há tradução).

 

________________1986. “Sound as a symbolic system: the Kaluli drum”, in C. Frisbie, ed., Explorations in Ethnomusicology in honor of David McAllester. Information Coordinators, pp.147-58.

 

 

20/09. Sessão 7. Trabalho de campo, etnografia e aprendizado musical

 

Professor convidado: Daniel Bitter

 

HOOD, Mantle. 1960. The Challenge of “Bi-Musicality”. Ethnomusicology, v. 4, n. 2, p. 55-59 (há tradução).

 

BAILY, John. 2001. “Learning to perform as a research technique in ethnomusicology”. British Journal of Ethnomusicology, 10 (2), pp 85-98.

 

SILVERMAN, Carol. 1995. “Forum comments: ‘learning to perform, performing to learn’”. The Journal of American Folklore, 108(429):307-316.

 

TITON, Jeff Todd. 1995. “Bi-musicality as a metaphor”. The Journal of American Folklore, 108(429):287-297.

 

Leitura complementar:

 

COOLEY, Timothy e BARZ, Gregory (ed). 1997. Shadows in the field: news perspectives for fieldwork in Ethnomusicology. New York/Oxford. Oxford University Press.

 

SAUTCHUK, C.; SAUTCHUK, J. 2014. “Enfrentando poetas, perseguindo peixes: sobre etnografias e engajamentos”. Mana v. 20, n. 3, p. 575-602.

 

 

27/09.  Sessão 8. Antoine Hennion: Música, mediação e pragmática do gosto

 

Professor convidado: Frederico Barros

 

LATOUR, Bruno. 1999. “Factures /fractures: from the concept of network to the concept of attachment”. In. Anthropology & Aesthetics, Res 36, Autumn.

 

HENNION, Antoine. 2003. “Music and Mediation: toward a New Sociology of Music”. In The Cultural Study of Music. A Critical Introduction. London and New York Routledge.

 

_____________________. 1995. “The History of Art – Lessons in Mediation”. In: Réseaux, volume 3 n°2. pp. 233-262.

 

____________________. 2011. “Pragmática do Gosto”. Desigualdade & Diversidade – Revista de Ciências Sociais da PUC-Rio, nº 8, jan/jul pp. 253-277.

 

 

4/10. Sessão 9. Tia DeNora: novas perspectivas para a sociologia da música

 

Professor convidado: Frederico Barros

 

DENORA, Tia. 2004. “Musical practice and social structure: a toolkit”. In CLARKE, Eric F. e COOK, Nicholas, eds. Empirical musicology: aims, methods, prospects. Oxford: Oxford University Press. pp. 35-56.

 

___________. “After Adorno: rethinking music sociology”.

 

Leitura complementar:

 

DENORA, Tia.  2009 (2000). Music in everyday life. Cambridge University Press (introdução “Formulating questions – the ´music and society´ nexus” (pp1-21) e Cap 6 “Music´s social powers” (pp 151-163).

 

 

 

11/10. Sessão 10. Paisagem sonora em debate

 

SHAFFER, R. Murray 1997 (1977).”Música, paisagem sonora e mudanças na percepção”. In: A afinação do mundo. Editora Unesp, SP, pp. 151-172.

 

FELD, Steven. 2004.  “Doing Anthropology in Sound” (with Don Brenneis), American Ethnologist 31(4):461-474.

 

___________________. “From Ethnomusicology to Echo-Muse-Ecology: Reading R. Murray Schafer in the Papua New Guinea Rainforest”. The Soundscape Newsletter, N° 8.

 

INGOLD, Tim. 2015. “Quatro objeções ao conceito de paisagem sonora”. In: Estar Vivo: ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Editora Vozes, Petrópolis, RJ.

 

Leitura complementar:

 

HIKIJI, Rose Satiko. 2006. “Das possibilidades de uma audição da vida social”. In HIKIJI, R.S.G. A música e o risco. São Paulo, Edusp/Fapesp. pp. 47-70.

 

18/10.  Sessão 11. Música e performance

 

BÉHAGUE, Gerard. 1984.  Performance Practice: Ethnomusicological Perspectives. Westport, Conn: Greenwood (Introdução).

 

COOK, Nicholas. 2006 (2003). “Entre o processo e o produto: música e/enquanto performance”. Per Musi, Belo Horizonte, n.14, pp.5-22.

 

MADRID, Alejandro L. 2009. “¿Por qué música y estudios de performance? ¿Por qué ahora?: una introducción al dossier”. Trans: Transcultural Music Review  n.13.

 

 

25/10. Sessão 12. Voz, Canto e Performance

 

BAUMAN, Richard. 2009.  “A poética do mercado público: gritos de vendedores no México e em Cuba”. Ilha(UFSC). v 11:1, pp  17-39.

 

REILY, Suzel. 2014. “As Vozes das Folias: um tributo a Elizabeth Travassos Lins”. Debates: n. 12.  pp. 35-53.

 

SEGATO, Rita. 1995.  ‘Okarilé: Uma Toada Icônica de Iemanjá’. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasília, n.28. pp 236-253.

 

STOLLER, Paul. 1984. “Sound in Songhay cultural experience”. American Ethnologist , 11: 3, pp 559-570.

 

 

1/11. Sessão 13. Novas sonoridades/Novas identidades

 

CARVALHO, José Jorge de. 1999.  “Transformações da sensibilidade musical contemporânea”. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 5, n. 11, p. 53-91.

 

CARVALHO, J. J.; SEGATO, R. L.1994. “Sistemas abertos e territórios fechados: para uma nova compreensão das interfaces entre música e identidades sociais”. Série Antropologia, n.164.

 

FELD, Steven. 1995 “From Schizophonia to Schismogenesis: the discourses and Practices of World Music and World Beat”. In. G. MARCUS & F. MEYERS.  The Traffic in Culture: refiguring Art and Anthropology. University of California Press. Berkely and Los Angeles, California.

 

 

8/11. Sessão 14. Apropriações, novas identidades e movimentos culturais 1

 

OOSTERBAAN, Martijn.2009. “Sonic Supremacy: Sound, Space and Charisma in a Favela in Rio de Janeiro”.  Critique of Anthropology, Vol. 29, No. 1 (Mar) pp.81-104

 

FELD, Steven. 2005. “Uma doce cantiga de ninar para a ‘World Music’”, Debates: Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Música. Rio de Janeiro, Centro de Letras e Artes/UNIRIO, pp. 9-38.

 

MIZRAHI, Mylene. 2010. “‘É o beat que dita’: criatividade e a não- proeminência da palavra na estética Funk Carioca”. In Desigualdade & Diversidade: Revista de Ciências Sociais da PUC-Rio n. 7, julho/dezembro.

 

KEHL, Maria Rita. 1999. “Radicais, raciais, racionais: a grande fratria do rap na periferia de São Paulo”. São Paulo em Perspectiva, 13 (3).

 

MEINTJES, Louise. 2005. “O sentimento da política: produzindo ‘zuluidade’ em um estúdio de gravação sul-africano.” in Debates: Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Música. Rio de Janeiro, Centro de Letras e Artes/UNIRIO.

 

22/11. Sessão 15. Apropriações, novas identidades e movimentos culturais 2

 

CARVALHO, J. J. 2004. “Metamorfoses das Tradições Performáticas Afro-Brasileiras: de Patrimônio Cultural a Indústria de Entretenimento”. Série Antropologia n. 354.

 

ARMSTRONG, Piers. 2002. “Songs of Olodum: Ethnicity, Activism, and Art in a Globalized Carnival Community”. In: Perrone, Charles A.; Dunn, Christopher (eds.). Brazilian Popular Music & Globalization. New York; London: Routledge. pp.177-191

 

CROOK, Larry. 2002. “Turned Around Beat: Maracatu de Baque Virado and Chico Science”. In: Perrone, Charles A.; Dunn, Christopher (eds.). Brazilian Popular Music & Globalization. New York; London: Routledge. pp.233-244

 

TRAVASSOS, Elizabeth. 2002. “Música folclórica e movimentos culturais”. Debates: Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Música, 6. Rio de Janeiro: CLA/UNI-RIO, pp.89-113.

 

___________________________ 2004. O moderno gosto das raízes e os híbridos artísticos (Mimeo).

29/11. Sessão 16. Imagem-som

 

FELD, Steven. 2016. “Etnomusicologia e comunicação visual”. In GIS – Gesto, Imagem e Som – Revista de Antropologia, n.1. São Paulo, 2016.

 

ROUGET, Gilbert. 1965. “Un film expérimental : Batteries Dogon. Éléments pour une étude des rythmes”. In: L’Homme, tome 5 n°2. pp. 126-132.

 

HIKIJI, R. S. G. 2009. “Vídeo, música e antropologia compartilhada: uma experiência intersubjetiva”. In BARBOSA, A., CUNHA, E. T., HIKIJI, R. S. G: Imagem-Conhecimento. Campinas, Papirus, v.1, p. 143-158.

 

Filmes: A batalha do Passinho, de Emílio Domingos

 

Batteries dogon, éléments pour une étude des rythmes, de Jean Rouch e Gilbert Rouget, 1964, 26 min