Eduardo Lacerda Mourao

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Este trabalho enfoca as “novas torcidas” no contexto do futebol carioca, auto-intituladas Movimentos ou Barras, surgidas no ano de 2006, que vêm trazendo, do futebol em específico à arena esportiva de forma geral, uma maneira diferente de torcer, não exatamente nova ou inédita, porém com uma proposta ideológica, comportamental e performática distinta do que as torcidas organizadas “convencionais” vinham realizando nos estádios e em seus circuitos torcedores. Trarei aqui a descrição das discussões e entrevistas, da observação e das experiências junto à estes coletivos, dentre eles principalmente o Movimento Popular Loucos pelo Botafogo, mas também o Movimento Guerreiros do Almirante, do Vasco da Gama, e o Movimento Popular Legião Tricolor, do Fluminense.

No senso-comum, e também na mídia esportiva especializada, estes movimentos têm sido apontados como vetores de uma prática de torcida pacífica e apaixonada. Seus discursos “oficiais”, à primeira vista homogêneos, guardam diferenças internas entre si, e espelham práticas sociais específicas, que cumpre a esta pesquisa revelar e analisar, sendo parte da construção e da dinâmica de um jogo de identidades e alteridades que é feita e refeita na prática, nos meandros de uma intrincada rede de relações que envolve diversos outros grupos e atores sociais.

Esta espécie de guinada comportamental proposta pelas novas torcidas, e nelas reconhecida, parece ter como principal espaço de elaboração seus cantos, renovados estética e politicamente. Para avançar na compreensão deste “universo torcedor”, a idéia aqui é que, a partir da imersão nos contextos significativos onde são idealizados, discutidos, produzidos e consumidos tais cantos, focalizando as práticas e discursos dos sujeitos engajados neste processo, dentro e fora do estádio, e da análise do material colhido, possamos reunir recursos para perscrutar como e porquê a “torcida cantada” teria sido ressignificada nos últimos anos – apesar de não ser uma modalidade de torcer exatamente nova no futebol brasileiro, como veremos, tem sido entendida como uma característica distintiva de um novo, arriscarei dizê-lo, ethos torcedor.