O Habermaster (1929-2026) - In Memoriam
Jürgen Habermas (1929-2026), o mais célebre filósofo e sociólogo da Europa, faleceu no sábado, 14 de março, aos 96 anos na sua casa in Starnberg. Sua obra encarna a herança da filosofia europeia e constitui um marco do pensamento do século XX. Habermas foi mais do que um filósofo na tradição kantiana. Foi o principal representante da segunda geração da Escola de Frankfurt e um influente intelectual público de esquerda. Em sua pessoa, representou a consciência moral da Alemanha. Com sua defesa intransigente do universalismo, da democracia e do Estado de direito, ofereceu uma bússola moral para, pelo menos, três gerações de estudiosos influenciados por seu vasto acervo intelectual e por suas intervenções na esfera pública. Habermas foi o último “scholar” universal e deixou sua marca em tantos campos do conhecimento (filosofia, sociologia, ciências políticas, direito, história, linguística, psicanálise, etc.) que se tornou facilmente um dos autores mais citados nas humanidades ao final do milênio. Defendeu o debate público e elevou o nível da argumentação nos debates intelectuais e políticos. Seus debates com Marcuse, Gadamer, Popper, Luhmann, Foucault, Derrida, Rawls, Taylor, Rorty, entre muitos outros, são marcos da filosofia contemporânea. Com suas brilhantes interpretações dos clássicos da filosofia, da sociologia e da ciência política, pautou a agenda intelectual por sete décadas. Em cada momento importante de sua vida — Maio de 1968, a queda do Muro de Berlim, a reunificação da Alemanha, o 11 de setembro, as guerras no Golfo, no Kosovo, na Palestina e na Ucrânia — tomou posição como intelectual público e defendeu suas convicções com vigor.
A obra de Habermas é vasta, exigente e difícil, mas sempre clara. É um pensador sistemático que escreve no mais alto nível de abstração com um conhecimento fenomenal das tradições filosófica, sociológica, política e jurídica. Embora se possa ter, por vezes, a impressão de que sua obra é irremediavelmente acadêmica, por trás do rigor de sua argumentação encontram-se sempre questões concretas: a crítica do capitalismo, os direitos humanos e o Estado de direito, a democracia e a justiça, a redistribuição e a solidariedade, a razão e os novos movimentos sociais. Como principal representante da segunda geração da Escola de Frankfurt, ele abriu a "jaula de ferro" da teoria crítica e a reorientou por dentro — da dominação para a comunicação, a democracia e a emancipação. Em sua obra inicial sobre o surgimento e o declínio da esfera pública burguesa, ofereceu uma defesa sistemática da democracia parlamentar. Para tornar o marxismo menos dogmático e mais democrático, reconstruiu sistematicamente seus fundamentos, conferindo igual importância ao trabalho e à comunicação. Criticou o positivismo, o decisionismo e a tecnocracia, e desenvolveu um modelo pragmático de deliberação democrática no qual argumentam, raciocinam e defendem suas posições publicamente. Reconhecendo plenamente a dialética do Esclarecimento, como humanista e contra os pós-modernos, ele continuou a defender a ciência com razão.
A comunicação é o conceito central da obra de Habermas. Em A Teoria da Ação Comunicativa, seu livro principal em dois volumes, publicado em 1981, a intuição que sustenta toda a sua obra está condensada em uma única frase: "O entendimento está inscrito na linguagem como seu telos". A ideia de que os sujeitos chegam ao entendimento por meio da linguagem e que, pelo intercâmbio argumentativo, alcançam um consenso, na vida cotidiana, na política e nos discursos filosóficos, está no coração de sua sociologia do mundo da vida, de sua ética do discurso e de sua democracia deliberativa. Sempre e em todo lugar, Habermas defendeu as pretensões da Razão. A razão não é uma força de opressão. É, antes, uma exigência de justificação racional das próprias posições em discussões e debates nos quais a única força permitida é a "força do melhor argumento". Essa exigência de justificação é o fundamento da legitimidade — políticos que não conseguem justificar racionalmente suas decisões usurpam o poder e são ilegítimos.
Habermas foi um pensador arguto e um homem afável. Para mim, foi e sempre será o Habermaster. Tudo o que sei de filosofia social lhe devo. Sua teoria sistemática da sociedade constitui o pano de fundo da minha própria teoria social. Graças a ele, pude superar o derrotismo da teoria crítica. Suas interpretações dos clássicos guiaram-me pela literatura. Suas interpretações dos clássicos me acompanharam pela literatura. Seu conceito de sociologia como ciência pública e filosofia prática orientou meu próprio engajamento dentro e além dos muros da academia. Sua defesa intransigente do universalismo inoculou-me contra qualquer forma de irracionalismo, tanto na filosofia quanto na política. A última vez que o vi foi em Yale, em 2005. Ele proferiu uma conferência e, com um grupo seleto, fui convidado a continuar a discussão em um restaurante. Intimidado pelo ambiente, fiquei calado. Eu era o único que não havia dito nada. Após o jantar, ele veio até mim e disse: "Aber wir kennen uns doch!" — Nós nos conhecemos, não é? Respondi que sim e me despedi. E agora ele se foi para sempre. Foi-se ele e foi-se o seu mundo, que era também o nosso. Sua morte marca o fim de uma época.