A comunicação traz evidências empíricas de que a polarização política afetiva e assimétrica vigente no Brasil contemporâneo, da qual o fortalecimento da extrema-direita é seu elemento mais visível, é mais explicada pela hegemonia de um repertório neoutilitarista “performista” do que por um suposto tradicionalismo comportamental ou religioso. Os dados sobre os valores hegemônicos indicam principalmente a defesa de uma sociedade fundada no desempenho e na concorrência isonômica entre particulares e não pela intenção de impor “costumes”. Nesse sentido, o alto nível de hostilidade à esquerda é acionado principalmente a partir do tema da injustiça: as exigências cívicas vocalizadas pela esquerda, em termos de redistribuir poderes em prol de uma vida coletiva aprimorada, são entendidas como um custo indefensável para aqueles que “performam” a sua responsabilidade particular “sem vitimismos”. A extrema-direita é a vertente securitária (proprietarista e soberanista) desse discurso neoutilitário, que articula a ideia de que exigências cívicas “comunistas” ou woke “roubam” ou oneram os elementos que constituem o modo de vida das pessoas ordeiras e meritórias. É nessa chave, que articula segurança e cálculo da satisfação particular mundana, que devem ser compreendidos os apelos seletivos ao passado e à “cultura judaico-cristã”. Esse grupo tem como objetivos preferenciais tanto o auto-engrandencimento como “modelo moral” na era da influência digital, quanto a redução dos custos cívicos com o controle sobre o seu antípoda simbólico: as “classes ociosas e perigosas”. Pretende-se que a pesquisa contribua para ressituar o debate sobre o “movimento patriota”, mostrando que ele tem menos a ver com “regressividade” normativa do que com um ajuste da típica fantasia de grupo pequeno-burguesa (a imbricação do mérito por esforço com a “liberdade”) aos conflitos contemporâneos em torno de reconhecimento e redistribuição. As fontes mobilizadas são de três tipos: estatísticas descritivas sobre comportamento nupcial, reprodutivo, religioso, consumidor e político; métricas de buscas no Google por temas vinculados à prosperidade, ludicidade e ornamentação; análise de discurso de políticos de extrema-direita.