Intervenções urbanísticas estão cada vez mais frequentes em Vargem Grande, bairro localizado na grande Zona Oeste do município do Rio de Janeiro. O seu valor mais baixo do terreno em relação às localidades vizinhas favorece a especulação imobiliária, resultando em um aumento populacional de 32% de acordo com os dados dos dois últimos censos demográficos. Isso gera fenômenos negativos, sobretudo enchentes. Os danos naturais podem ser ainda maiores caso o cenário atual continue (Name e Cardeman, 2014). Os moradores alteram as suas projeções tendo em vista um processo de urbanização do bairro. Por meio de uma etnografia e uma abordagem metodológica situacionista, analiso as ideias de líderes locais que mobilizam a memória do “sertão carioca”, pautada nas crônicas de Armando Magalhães Corrêa (1938) publicadas nos anos 1930. Como resultado, aponto três formas de construção de futuro e, atrelado a elas, maneiras diferentes de abordagem do sertão. A primeira delas, o futuro protendido, baseia-se nas relações de proximidade com projeções pautadas na intuição. Situações definidas dessa maneira demandam a busca por reminiscências de um passado atrelados ao agrário por meio da reatualização de festas tradicionais. A chegada de elementos associados à cidade favorece inovações. Analiso a criação de uma horta comunitária, denominada “Espaço de Agroecologia Sertão Carioca”, em que os interlocutores implementam criativamente as últimas técnicas de agricultura que gerem menos impactos ao ecossistema, uma ilustração de um futuro pautado pela exploração (Auray, 2011). Por fim, os efeitos negativos da urbanização em uma localidade vulnerável ecologicamente levam a percepção de um futuro catastrófico. Por isso, os atores buscam ações urgentes antes que um cenário aterrador irreversível ocorra. Essa modalidade de futuro dominou as discussões, nas reuniões comunitárias, sobre a criação da Área de Preservação Ambiental Sertão Carioca, em 2021, e a implementação do novo Plano Diretor do município do Rio de Janeiro no bairro, em 2023.